A aranha do meu destino

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir…
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro…
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa, Livro Poesias Inéditas

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Artimanha

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Pouca coisa
É tão imutável quanto essa sanha:
Nunca cai a aranha.

É da sua natureza
preservar-se quando apanha,
escalando o alizar da janela
até o batente se dobrar à ela.

Dar um prumo vertical à queda:
eis a sua escabrosa habilidade,
a astúcia em burlar pirambeiras
sempre ereta nas íngremes beiras.

Não cair: eis a índole da aranha
escorar-se ágil nas próprias redes
mesmo se subindo pelas paredes.

Poucas coisas
podem ser tão arte e manha
quanto o ardil tecido pela aranha.

Sandra N. Flanzer, inédito

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