Ponto sem nó

Dona Ana costurava desde que seu mundo começara a fazer nós. Servia-se dos carretéis, agulhas e alfinetes para tramar seu território: tecido baldio que o entrelaço ocupava sem cerimônia.

E parecia ter nascido mesmo para isso, a entrecortante Dona Ana. Nascera para coser o belo com suas mãos calejadas, e era isso que buscava. Por vezes, os fios abraçavam-na de forma generosa, oferecendo-lhe o contorno esquivo mas necessário, contorno de linhas tortas. De idade não pouca, já havia visto um bocado, embora teias só as enxergasse por trás de lentes turvas e verdadeiramente foscas.

E foi assim que Dona Ana, a senhora quase cega, acordou um dia decidida: desejava costurar o vento.

Sua filha, que naquele dia – como em todos os outros – passava pelo quarto de tear, retrucou desiludida: “Pareces uma criança!”. Mas Dona Ana, que nunca na vida perdera o fio da meada, não recuou. E lá foi ela atrás do vento, munida de seus instrumentos, afiados e pontiagudos.

Começou por tentar dobrá-lo ao meio, mas o vento, indivisível, manifestou sua incisiva inteireza. Procurou então bordá-lo junto às pedras, mas o vento, completivo, arremessou-a com plena força, e foi aí que Dona Ana chocou-se. Ainda insistente, buscou engendrar o vento, perpassando seus novelos bem amarrados por entre as brechas que os uivos denunciavam. Mas o vento, que não se deixava furar, não permitia redes nem rodeios, fez Dona Ana tontear.

Não podendo nem cortá-lo, nem ao menos suturá-lo, Dona Ana saturou…

E Dona Ana, que nunca na vida dera ponto sem nó, desapontava-se de vez. Emaranhava-se na trama do inexistente, enquanto o vento girava em torno dela, tornando-a tornado, indefinido e infinito, de fio solto e sem arremate.

Até a hora em que se encontraram com o muro, ela e o vento.

E foi então que ambos, submetidos, tiveram que tecer uma outra direção.

 Sandra N. Flanzer,  a pa-lavra

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