In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida

Deixar que escorra, provar da bica

Gastar, roer, raspar do fundo

Fincar as unhas no umbigo do mundo.

Cravar as mãos, roçar, pegar,

Ir ao encontro de, ralar, ralar

Usar agora, desgastar, se engastar

No tempo breve que passa justo.

Perder, perder, ceder ao outro

O resto pífio desse plano torto

De achar que vivo é o que se encaixa

Quando é a morte que se guarda em caixa.

Porvir, puir, e por ir, desperdiçar

Do impossível, cruzar a faixa

Fuçar o real que no acaso sobrar

E torná-lo inútil a ponto de gostar.

 

Publicado em “do quarto”, 2017

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Quase mansa

Vai chegar o diaImagem 1
Em que minha poesia
Não entrará mais de sola
Pedirá sutil licença
Forjando educada presença
Pra não ser mais o que amola
Baterá em retirada
Quase descontaminada
Será calma, comportada
Respeitando o espaço alheio
Não virá num incômodo e-mail
Que adentra tuas férias
Mas, nesse dia, estará morta
Terá se rompido a aorta
Que ultrapassa nossas artérias.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Volta de aranhas

Que não se limpe o teto
Quero as aranhas por perto
Que não se expulse suas teias
Quero as aranhas galgando minhas veias
Que elas se cumpram no canto dos olhos
Que se alojem nas cabeças e corpos
Que circulem nas quinas de ângulo reto
Que teçam enredos com nossos dejetos
Quero suas patas ainda me aranhando
Emaranhando arteiras voltando de férias

Até parasitarem em minhas artérias.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Artimanha

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Pouca coisa
É tão imutável quanto essa sanha:
Nunca cai a aranha.

É da sua natureza
preservar-se quando apanha,
escalando o alizar da janela
até o batente se dobrar à ela.

Dar um prumo vertical à queda:
eis a sua escabrosa habilidade,
a astúcia em burlar pirambeiras
sempre ereta nas íngremes beiras.

Não cair: eis a índole da aranha
escorar-se ágil nas próprias redes
mesmo se subindo pelas paredes.

Poucas coisas
podem ser tão arte e manha
quanto o ardil tecido pela aranha.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Borboleta Amarela

Coisa mais linda a Borboleta
Que brotou na minha janela…
Todas as cores, uma faceta:
Como não amar ela?

Imagem 1

Ventura carregando encanto
Passou rente à minha presença,
Pousou breve e fez meu canto
Num instante, sem licença.

E me visita sem hora marcada
Marcando as horas com sua visita,
Trazendo estilo onde antes o leve,
Levando o Tempo enquanto se agita.

Presente raro a Borboleta realiza
Enquanto recolho o que resta dela:
O ar desloucado, a tênue brisa,
O sopro sereno na varanda singela.

Por um lado, encontro e pró cura
Por Outro inexiste, mas por um segundo…
Como é bela a Borboleta que dura
No bater das asas que criam o mundo.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Metamorfrases

Que a libélula se torne liberta
Que a métrica extrapole a meta
Que os rastejantes virem voa dores
Para o corte, vir em cores.

Que a cigarra, com garra, se desgarre
Transformada, que a frase mude a fase
Que as rasas asas transmutem à altura
Pra que a amargura se converta em amar cura.

Sandra N. Flanzer, inédito

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E mana

Há dias em que, ao cedo, a vida responde com mágoa.

1-1276781659kNs1Mas há dias em que, à sede, a vida responde com água.

O resto é pingo, ou lágrima manada.

 

Sandra N. Flanzer, inédito 

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Certos insetos

Que venham as pulgas, as moscas e as vespas;
O piolho, o pernilongo e o percevejo.
Sejam bem-vindas todas as graúdas bestas
E as miúdas, que quase nunca vejo.

Adentrem na sala a barata e o gafanhoto,
Pelo friso da janela, agora aberto.
Que me invadam bichos vivos, e o morto,
Que me infecte todo e qualquer inseto.

Quero a traça traçando meu destino incerto,
Pousar no canto da cigarra e ser formiga,
Quero borboletear por aí, de peito aberto,
Ser abelhuda no veneno da mordida.

Liberem as pestes, que agora tudo é praga!
Entre minha aranha, carrapatos e mosquitos
Está aberta a peçonhenta temporada,
Quero meus grilos dando asas aos meus gritos.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

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