Têxtil

Quando o primeiro pedaço de pano despontou em sua vida, não solucionou a falta de pelo, pelo contrário. Era um pedaço de tecido parco, um leve paninho, sem/com/texto: justo apenas para calhar numa ou noutra parte do corpo da menina que já sofria de inadequação: por horas a frio, horas excessivamente quente. E ela se agarrou ao pano como quem nasce de um desejo vedado.

Ainda pequena, arrastava seu pano por onde passava. Desenhando, assim, com a ponta da malha, o próprio mundo que ia contornando conforme andava, presa ao primeiro emaranhado de fios mesmo sem ter para onde ir.

E foi com a ponta do pano, já endurecida de saliva e lágrimas, que a menina passou a marcar no mundo os dizeres que só depois passariam a tramar-se feito escrito. O texto do têxtil. Para, em seguida – dadas as iniciais palavras, dada alguma tessitura na textura da ponta do já tecido – ela ir cavoucando o próprio pano: a princípio forçando a cabeça por entre o miolo da fazenda, fazendo o rasgo primitivo. Furo aberto do tamanho e da conta da cabeça, para em seguida vê-la sobrar e faltar, incurável.

Tomado como veste, já por necessidade a menina forçava com o braço outro furo no pano, e depois mais um, de modo que aos poucos o tecido passava a perfazer o contorno de seu corpo insuficiente.

Foi o pano que teceu na menina seu molde. E, juntamente, seu desajustamento. Foi o pano que fabricou no mundo a miséria que ele mesmo se incumbiria de encobrir.

Então – e por isso -, a menina virou mulher. Passou a usá-lo como veste para desfilar nas altas rodas. Produzida no corte – e na costura -, exibia o têxtil como se fizesse parte, como se o pedaço apenso dissesse sobre ela mais do que a pele, pelada. E, como o pano havia minguado diante do tamanho aumentado de seu corpo já feito (e sem cabimento), passou a trazê-lo praticamente colado à tez, servindo-se do tecido em seu status de ornamento, simulando um corpo que jamais teria havido, ávido, se não fosse por isso.

Na sequência, deu-se um longo período em que ela experimentou sua adultez afastada do pano – posto que esquecê-lo era inevitável. Nesses tempos, evitou a nudez, mas tudo era escasso na enganosa tarefa de velar e revelar. Protegeu-se dos caimentos, mas nisso também foi mal sucedida. Então atravessou, do pano de esconder vergonhas, à vergonha de seu plano.

Até que um dia, lancinante na dor de um fracasso textual, viu a própria vida esgarçar quando deu de cara, por acaso, com o velho pano esquecido, largado tempos antes em meio à sarjeta de uma estranha calçada qualquer. Puído, descuidado e relegado às fossas, o têxtil da menina que havia se tornado uma falsa adulta agora apodrecia numa esquina.

Recolheu o paninho esfarrapado do chão na rua erma – ele, que de tão curto mal servia como lenço, embora entornasse ainda o pescoço. Foi quando notou, a pesar, que o pequeno tecido lhe cabia como uma luva: cobriria ainda suas mãos a fazenda de toda a vida e a fazenda, fazendo, era tudo que ela precisava para recomeçar.

Dali por diante enrolou-se nos retalhos, véu furado das noites, deixando-se enrolar por eles. Sem moeda de troca, faria, sempre que possível, do minto um manto. E caminharia seminua na companhia das estrelas até o fim dos tempos, onde, descoberta, veria os dias terminarem e sobre o seu corpo precário se estenderia o derradeiro pano, capa de tecido; o verdadeiro pano, capaz de ter sido.

 

Publicado em Re/talhos (2015)

 

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Pano de fundo

Nada quanto ao que se faça. Nada quanto ao que se teça. O que é vivo dá panos pra manga e gera tessitura, apenas isso. Às vezes, a borda transborda. E, justo porque morro no ponto final, insisto: sinto as sobras do tecido pinicando a pele. Essa rede, feita entre nós, é o lugar mais perto daquilo que ainda posso chamar de viver.

Feneço no fim da picada da agulha que fura irreverente, penetrando a superfície de cada desencontro. Cato a unidade iludida na densa tela, fazenda fundamental que me liga à você. Às vezes posso prescindir da liga, às vezes padeço. Pois é menos solitário se costuro, no véu do texto, alguma textura. Suavemente enganada no pano que roça meu rosto, amor tecido.

Trago na memória das minhas mãos fazentes cada veio falhado, na tentação de prender os pontos, a caber nessa nossa espessa cosedura. Queria-o meu, esse pano tramado, desejava-o só pra mim. E, mesmo supondo ser furada, acredito loucamente na precisão da agulha.

Uns dizem que é destreza, mas o que tenho é defeito na alma. Não passa quando o vento arreda o véu. Aumentam as fendas infecháveis por onde cava a agulha, pinicado ainda mais a alma de trapo toda, entregue ao repetitivo fazer de cada vez.

Trago comigo uma dor de existir que é pano de fundo. Uma dor que é pano de mundo. Trago no avental do corpo essa morte plana. E há, para além de todos os meus planos, esse pano imundo.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

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