De tanto perder

Quando os moventes chagaram, encontraram-na estirada. Na maca, sem roupas, o peso fora das medidas. As mãos gastas feito pele de bicho, do corpo a superfície descamada, unhas sujas e por fazer sem ter pra quem.

Já havia alcançado a sala sem forças, despreparada. Os badulaques, outrora úteis nos bailes onde se sentia convidada, já lhe haviam sido arrancados. De saída eram puídas as vestes datadas com que se escondia, e os acessórios, gastos nas infames entradas, há tempos não reluziam mais.

De modo que já era sem pertences e em frangalhos quando adentrou a sala indigente, pra nunca mais sair.

As tripas à mostra provavam a batalha; o cheiro do sangue impregnava a ponto de imprimir o gosto na boca. De tão vermelho – último resquício de vida que ainda decorria – a arrancar-lhe os últimos prognósticos.

Quando os agentes intervieram, já não encontraram sob a luz fria nem mesmo a mulher que ela havia sido estirada na maca aguardando sem fé os últimos cuidados; nem mesmo a beleza desgastada da viúva em perdição que ela havia podido ser com fulgor.

“Fraca sou” – ouviu-se ainda na sala o fiapo de voz que ninguém mais reconhecia. “Fracassou”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Aranha de hoje

Hoje ela me olhava assim… assim que adentrei a porta da sala do trabalho mais difícil do mundo, para o qual eu era despreparada.

Repara, vê: ela me olhava assim e não se podia determinar onde terminava o corpo dela e começava a pata, onde terminava a pata e começava a sombra.

Olha e vê como ela se dá ao milagre de ser feita de imprecisões tão precisas, como ela se move indiferente enquanto estarreço diante dela.

Um ser assim, dessa natureza, que não pode pertencer a esse mundo, mas que me olha e vê, enquanto já não posso mais me achar nisso que me olha e vê, já não tenho mais as patas nem as pontas dos dedos com as quais encostar no que poderia me dar margem. Ou pé.

Olha e vê: estamos indissociadas, eu e a aranha que me leva pelas águas, diante de quem estremeço aterrorizada e lívida, diante de quem já não posso mais amar, não posso mais comer, não posso mais correr, não posso mais.

Olha e vê através dos meus olhos embaçados: aqui onde estou, às duas da manhã, não há senão o vazio singelo dessa fraca luz, i-lustre iluminando a escuridão da noite, acirrando mais ainda o breu que andava estrategicamente escondido, há tempos, em segredo, apesar da minha farsa de supor-me em dia.

Repara como hoje é preciso romper a ilusão do clarão e se dar à morrer, morrer de medo… Deixar o bicho solto, sem qualquer contorno, apto a nos carregar para onde qualquer córrego quiser.

Sim, hoje: esse tempo de entrega a isso que já estava escrito há meses, tempo de correr – mesmo sem patas – a tempo de entregar ao mundo o que lhe é de direito, antes que se acabe. E se acabou.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Terceira aparição: Ainda Aranha

Por que, Aranha, me deixaste? Deixaste-me pelo quê? Ao som do silêncio profundo na sala escura de só brancos, recebeste hoje a minha já escapada presença com a tua ausência de pontos pretos, Aranha. E Isso arranha.

Onde te escondeste enquanto eu dizia minhas tantas e tontas asneiras, enquanto transbordava de excessos e insuficiências? Dali donde ainda canso à cata de canto, abusiva e bichada, fragilmente emaranhada, em busca da singela rede onde possa, enfim, re-pousar.

Por onde andarás, minha Aranha, tu: ponto fixo que sempre regressa, e cujo retorno, quando avistado, demais assombra. Tu, de quem a saudade me co-move, me re-move, enquanto teço-me ainda em inúteis expressos excessos?

Onde aguardas, quieta e ausente, enquanto, atrás de ti, cá subo pelas paredes? Se ainda é por ti e sobre ti que digo insanidades, descomedimentos e exageros destemperados… Se ainda nada importa senão sumiço e advento de bicho estranho… E se, há tempos, sem que nunca se saiba por que, me deixaste verdadeiramente só. Desde que caí na tua rede.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Segunda aparição: Minha Aranha

Como fazes, Aranha, para viver ali acima, de modo tão plácido, lá no alto de minhas vistas, onde a esquina se ajeita arredondada, de forma e lugar tão acertados? Vejo-a imóvel, dona da teia armada, serena como há de ser todo bicho solto vivo, após embate. Noto, no ponto preto por sobre os brancos, que bem encontraste teu canto. Em contraste, teu canto.

Como aprendeste a se virar, minha Aranha? Quem te ensinou a ser assim, de habilidade certeira como meus dedos jamais serão?

Talvez de inveja eu esteja te amando, Aranha. Pois a inveja é uma forma de amar, quando sobra de não aniquilarmos. Amo-te por estares segura de mim. Quieta no teu canto. Amo-te por teus fios imponderáveis. Amo-te por que te salvam. Porque te seguram, asseguram lugar.

Então, hoje velo tua esquina disposta ao teto. E não deixo ninguém se apossar. Que não se limpe! Que não se extraia tua teia (nem mesmo aquela apartada, cor de cinza). Hoje careço que me guardes, Aranha, que vigies quando digo o que penso enquanto não penso no que digo. Que me faças companhia daí de cima. Tão enredada, ateiada, tão acomodada ao teto, tão livre quanto presa, e tão perto do chão de mim.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Primeira aparição: A Aranha Dali

A Aranha decidida movia-se na minha direção. Mexia os tentáculos com os quais tentava. Até que a notei.

Pouco diferia de como faço quando dou de mexer meus dedos por sobre teclas, compondo qualquer textura. Identifiquei-me então de saída, embora assustada com a astúcia com que realizava, bem sucedida, sua sucessão de movimentos na resoluta trajetória. Na minha direção.

Por resistência, pensei em aniquilá-la. Solução imediatista. Afinal, lá se ia ela com seus bordados, objetivos – nisso em nada assemelhando aos meus. Assim eu estancaria o incômodo e a diferença. Freou-me a preocupação com a sujeira (restos na parede da sala), mas, como permitir que a Aranha seguisse incólume seu fluxo ameaçador? Deixá-la avançar até alcançar-me, interrompendo meu suposto curso, desagradava-me de todo.

Foi quando a mulher que fala com os bichos me sugeriu que a jogasse para lá. Mas, onde ficava ‘lá’? Se lá já era ali mesmo… Onde mais a Aranha poderia estar, se não apoiada nessa mesma parede nossa, e sempre por um fio?

No final das contas, antes que eu pudesse decidir se a interceptaria, a mulher que vez por outra soltava os bichos ofereceu-se pondo as mãos. Mas a Aranha espaçosa invadiu meu lugar, faceira e esperta, como se pertencesse. Como se fosse Dali. Apossou-se do meu frágil encosto, fez seu o meu apoio, camuflou-se por entre cores, mal vista, senão pelo certeiro mover. E a partir daquele instante eu a invejei profundamente. Sua precisão a fazer o que precisa. Sua ligeireza. Seus tentáculos eficazes, feito dedos não dispersos. Logo pra cima de mim – tão difusa e enrolada.

Só depois de fingir ignorá-la e talvez tê-la atropelado é que pude fazer laço com ela. E antes que eu voltasse a supor que por fim a tinha esmagado integrei-me a ela: praticamente introjetei a Aranha, bem como sua linha solta – que, feito cabelo, coçou-me pelo rosto para o resto da vida. E bem na minha cara impregnou-se a Aranha, que já havia aparecido outras vezes na sala, seu modo veloz e rasteiro de resolver as coisas: indo pra cima, ao invés de meias voltas. Compromisso decidido, apurado no fio da meada.

De modo que dali restei até agora, pendurada. Por horas, a fio.

 Sandra N. Flanzer, inédito

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Encontro indigente

As lágrimas secas despencavam de seu rosto, na noite úmida e interminável.

Fracassada no descanso, não achava posição em sua cama de repousar. Foi quando avistou, da janela suicida, a mulher revirando na rua o lixo da madrugada. Mal vestida, procurava seu básico, aquela mulher ali, catando o lixo. Revestida de uma simplicidade estonteante: procurava o essencial no lixo da rua.

Como poderia estar aquela mulher ali, buscando algo, se lá de cima seus dejetos apodreciam-na por dentro?

Revirava-se sob o essencial para não largar seu lixo não perecível, enquanto a mulher tranquilamente revirava o lixo reciclável de sua existência.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Caminho das perdas, ou menos

Vestia cascas forradas, arrumada para o Tempo. Fazia frio de início, daí as camadas encobertas. Agasalhava-se de densas bordas sobrepostas que a escondiam de si e de alguns.

Até adentrar no caminho das perdas, de pegada.

O primeiro adereço foi preciso despregar arrancando, pois solidão ofuscada às avessas disfarçava o contrapeso carregado. Seguiu despelando – uma a uma – envolventes vestes intermediárias que só trajavam trajetos decaídos. Cedeu a molambos indumentárias vistosas. Desprendeu-se das tropas de roupas, dos trapos de loucas, e das pencas despencou caminhando. Mais um passo e largou a ferro o forro, último vestígio de brilho armado para valer e velar.

Menos sacada, sacou da face o último véu. Despida, despedida de enfatuação, de fato partiu – pelada de sentidos e de ínfimo infestada. Menos enfeite, menos enferma.

Ao final do percurso tombou fatigada, desnuda e feia de frio. Sem adornos, adormeceu viva. Sonhava panos para manga, em prantos. E de pronto desprovida, ao menos desvelada, sem acordo, acordou bem mais perto de perder-se.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Escurta

Terminara aquela conversa falando da peça de tecido. Que se alongara em escolha difícil entre o que vestia bem e o mais em conta. E ali se cortou o fio da fala.

No encontro seguinte, antes mesmo dos cumprimentos formais, emendou o resto da frase. De tudo, o que mais encantava era a continuidade da comunicação. Pois era como se não houvesse fim de semana, era como se o ‘entre’ fosse sempre um convite à entrada, sem fatal separação; era como se aquela escuta que a acompanhava por sobre histórias comezinhas morasse ali bem rente, permanentemente. Ao mesmo tempo em que a escansão e o intervalo consistiam o fundamental da vida entre as letras.

E era como se aquela escuta habitasse o bocal do seu discurso, como se não dormisse, esperando-a no laço, sempre que abrisse o bico, como se não comesse ou não tivesse necessidades. Aguardava o dizer no umbral da sua boca, portal de saída das palavras, mas sempre na borda da língua, ali onde a escuta encurta a fala, e onde a fala, com fio, confia.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Pano de fundo

Nada quanto ao que se faça. Nada quanto ao que se teça. O que é vivo dá panos pra manga e gera tessitura, apenas isso. Às vezes, a borda transborda. E, justo porque morro no ponto final, insisto: sinto as sobras do tecido pinicando a pele. Essa rede, feita entre nós, é o lugar mais perto daquilo que ainda posso chamar de viver.

Feneço no fim da picada da agulha que fura irreverente, penetrando a superfície de cada desencontro. Cato a unidade iludida na densa tela, fazenda fundamental que me liga à você. Às vezes posso prescindir da liga, às vezes padeço. Pois é menos solitário se costuro, no véu do texto, alguma textura. Suavemente enganada no pano que roça meu rosto, amor tecido.

Trago na memória das minhas mãos fazentes cada veio falhado, na tentação de prender os pontos, a caber nessa nossa espessa cosedura. Queria-o meu, esse pano tramado, desejava-o só pra mim. E, mesmo supondo ser furada, acredito loucamente na precisão da agulha.

Uns dizem que é destreza, mas o que tenho é defeito na alma. Não passa quando o vento arreda o véu. Aumentam as fendas infecháveis por onde cava a agulha, pinicado ainda mais a alma de trapo toda, entregue ao repetitivo fazer de cada vez.

Trago comigo uma dor de existir que é pano de fundo. Uma dor que é pano de mundo. Trago no avental do corpo essa morte plana. E há, para além de todos os meus planos, esse pano imundo.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

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Pijama alinhavado

Deparou – mas não parou – ante a visão não costumeira da costureira que tecia belas roupas feitas para cobrir soberbamente as juntas de com quem, junta, mais lhe importava estar. Ora, pespontava-se assim a oportunidade dos sonhos: jamais teria outra chance de valer-se de tal proximidade indumentária. Além disso, finalmente aprenderia a tecer com as mãos, permitindo-se imitar, a dedo, no dedal, vestidos vestidos por quem tanto admirava.

Foi quando, entre a manifesta pergunta debaixo dos panos e a latente resposta despida de tecidos, viu despontar de dentro do quarto, sorrindo, quem tanto apreciava. Segurava sobre as palmas o destino endereçado. Feito era de leve fazenda, feito era de trama de repousar: um pijama alinhavado de presente. Nas entrelinhas, avistou adereço e endereço, e revestiu-se toda de cabida alegria.

‘Logo você, essa castanha despojada’ – dizia suave a voz, respirando sutil gracejo – ‘almejando trajes como os meus?’ E seu tom emaranhava assento, acentuando a mais caseira roupagem que se poderia coser. Caimento apropriado a compor novos feitios.

‘São vestígios de vestidos’, pensou. Feito vigília que se deita acolchoada: para o forro, não há desforra. Quem sabe um dia, vincos hão de vincular.

Sandra N.Flanzer, a pa-lavra

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