De tanto perder

Quando os moventes chagaram, encontraram-na estirada. Na maca, sem roupas, o peso fora das medidas. As mãos gastas feito pele de bicho, do corpo a superfície descamada, unhas sujas e por fazer sem ter pra quem.

Já havia alcançado a sala sem forças, despreparada. Os badulaques, outrora úteis nos bailes onde se sentia convidada, já lhe haviam sido arrancados. De saída eram puídas as vestes datadas com que se escondia, e os acessórios, gastos nas infames entradas, há tempos não reluziam mais.

De modo que já era sem pertences e em frangalhos quando adentrou a sala indigente, pra nunca mais sair.

As tripas à mostra provavam a batalha; o cheiro do sangue impregnava a ponto de imprimir o gosto na boca. De tão vermelho – último resquício de vida que ainda decorria – a arrancar-lhe os últimos prognósticos.

Quando os agentes intervieram, já não encontraram sob a luz fria nem mesmo a mulher que ela havia sido estirada na maca aguardando sem fé os últimos cuidados; nem mesmo a beleza desgastada da viúva em perdição que ela havia podido ser com fulgor.

“Fraca sou” – ouviu-se ainda na sala o fiapo de voz que ninguém mais reconhecia. “Fracassou”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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In vestida

IMG_1273Hoje vou sublimar
Esse beijo na boca
Hoje vou sublinhar
Essa troca de roupa
E vou à vida, voto
com sabor de urna pouca
Mas hoje volto outra coisa,
que não seja o ensejo da louca.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Caminho das perdas, ou menos

Vestia cascas forradas, arrumada para o Tempo. Fazia frio de início, daí as camadas encobertas. Agasalhava-se de densas bordas sobrepostas que a escondiam de si e de alguns.

Até adentrar no caminho das perdas, de pegada.

O primeiro adereço foi preciso despregar arrancando, pois solidão ofuscada às avessas disfarçava o contrapeso carregado. Seguiu despelando – uma a uma – envolventes vestes intermediárias que só trajavam trajetos decaídos. Cedeu a molambos indumentárias vistosas. Desprendeu-se das tropas de roupas, dos trapos de loucas, e das pencas despencou caminhando. Mais um passo e largou a ferro o forro, último vestígio de brilho armado para valer e velar.

Menos sacada, sacou da face o último véu. Despida, despedida de enfatuação, de fato partiu – pelada de sentidos e de ínfimo infestada. Menos enfeite, menos enferma.

Ao final do percurso tombou fatigada, desnuda e feia de frio. Sem adornos, adormeceu viva. Sonhava panos para manga, em prantos. E de pronto desprovida, ao menos desvelada, sem acordo, acordou bem mais perto de perder-se.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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