Praga

Hoje, uma espécie de bicho
Me tomou, subiu pelo nicho
Um tipo assim bem nojento
Transportado pelo vento
Adentrou, subiu pela cama
Tendo asas e barbatana
Um tipo assim pegajoso
Infectando o espaço todo
Bicho de estirpe surreal
Contagiando o corpo total
Uma laia de inseto que gruda
Nos pés, nas mãos e na bunda
Que ilude, se finge de fraco
Mas ressurge do buraco
Aquele tipo legítimo de bicho
Que se nutre da falta e do lixo
Um tipo sem pena, que emana
Transformando o vazio em gana
E tanto agrada quanto engana:
Tipo a gente, quando ama.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Encontro indigente

As lágrimas secas despencavam de seu rosto, na noite úmida e interminável.

Fracassada no descanso, não achava posição em sua cama de repousar. Foi quando avistou, da janela suicida, a mulher revirando na rua o lixo da madrugada. Mal vestida, procurava seu básico, aquela mulher ali, catando o lixo. Revestida de uma simplicidade estonteante: procurava o essencial no lixo da rua.

Como poderia estar aquela mulher ali, buscando algo, se lá de cima seus dejetos apodreciam-na por dentro?

Revirava-se sob o essencial para não largar seu lixo não perecível, enquanto a mulher tranquilamente revirava o lixo reciclável de sua existência.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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