Terceira aparição: Ainda Aranha

Por que, Aranha, me deixaste? Deixaste-me pelo quê? Ao som do silêncio profundo na sala escura de só brancos, recebeste hoje a minha já escapada presença com a tua ausência de pontos pretos, Aranha. E Isso arranha.

Onde te escondeste enquanto eu dizia minhas tantas e tontas asneiras, enquanto transbordava de excessos e insuficiências? Dali donde ainda canso à cata de canto, abusiva e bichada, fragilmente emaranhada, em busca da singela rede onde possa, enfim, re-pousar.

Por onde andarás, minha Aranha, tu: ponto fixo que sempre regressa, e cujo retorno, quando avistado, demais assombra. Tu, de quem a saudade me co-move, me re-move, enquanto teço-me ainda em inúteis expressos excessos?

Onde aguardas, quieta e ausente, enquanto, atrás de ti, cá subo pelas paredes? Se ainda é por ti e sobre ti que digo insanidades, descomedimentos e exageros destemperados… Se ainda nada importa senão sumiço e advento de bicho estranho… E se, há tempos, sem que nunca se saiba por que, me deixaste verdadeiramente só. Desde que caí na tua rede.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Segunda aparição: Minha Aranha

Como fazes, Aranha, para viver ali acima, de modo tão plácido, lá no alto de minhas vistas, onde a esquina se ajeita arredondada, de forma e lugar tão acertados? Vejo-a imóvel, dona da teia armada, serena como há de ser todo bicho solto vivo, após embate. Noto, no ponto preto por sobre os brancos, que bem encontraste teu canto. Em contraste, teu canto.

Como aprendeste a se virar, minha Aranha? Quem te ensinou a ser assim, de habilidade certeira como meus dedos jamais serão?

Talvez de inveja eu esteja te amando, Aranha. Pois a inveja é uma forma de amar, quando sobra de não aniquilarmos. Amo-te por estares segura de mim. Quieta no teu canto. Amo-te por teus fios imponderáveis. Amo-te por que te salvam. Porque te seguram, asseguram lugar.

Então, hoje velo tua esquina disposta ao teto. E não deixo ninguém se apossar. Que não se limpe! Que não se extraia tua teia (nem mesmo aquela apartada, cor de cinza). Hoje careço que me guardes, Aranha, que vigies quando digo o que penso enquanto não penso no que digo. Que me faças companhia daí de cima. Tão enredada, ateiada, tão acomodada ao teto, tão livre quanto presa, e tão perto do chão de mim.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Primeira aparição: A Aranha Dali

A Aranha decidida movia-se na minha direção. Mexia os tentáculos com os quais tentava. Até que a notei.

Pouco diferia de como faço quando dou de mexer meus dedos por sobre teclas, compondo qualquer textura. Identifiquei-me então de saída, embora assustada com a astúcia com que realizava, bem sucedida, sua sucessão de movimentos na resoluta trajetória. Na minha direção.

Por resistência, pensei em aniquilá-la. Solução imediatista. Afinal, lá se ia ela com seus bordados, objetivos – nisso em nada assemelhando aos meus. Assim eu estancaria o incômodo e a diferença. Freou-me a preocupação com a sujeira (restos na parede da sala), mas, como permitir que a Aranha seguisse incólume seu fluxo ameaçador? Deixá-la avançar até alcançar-me, interrompendo meu suposto curso, desagradava-me de todo.

Foi quando a mulher que fala com os bichos me sugeriu que a jogasse para lá. Mas, onde ficava ‘lá’? Se lá já era ali mesmo… Onde mais a Aranha poderia estar, se não apoiada nessa mesma parede nossa, e sempre por um fio?

No final das contas, antes que eu pudesse decidir se a interceptaria, a mulher que vez por outra soltava os bichos ofereceu-se pondo as mãos. Mas a Aranha espaçosa invadiu meu lugar, faceira e esperta, como se pertencesse. Como se fosse Dali. Apossou-se do meu frágil encosto, fez seu o meu apoio, camuflou-se por entre cores, mal vista, senão pelo certeiro mover. E a partir daquele instante eu a invejei profundamente. Sua precisão a fazer o que precisa. Sua ligeireza. Seus tentáculos eficazes, feito dedos não dispersos. Logo pra cima de mim – tão difusa e enrolada.

Só depois de fingir ignorá-la e talvez tê-la atropelado é que pude fazer laço com ela. E antes que eu voltasse a supor que por fim a tinha esmagado integrei-me a ela: praticamente introjetei a Aranha, bem como sua linha solta – que, feito cabelo, coçou-me pelo rosto para o resto da vida. E bem na minha cara impregnou-se a Aranha, que já havia aparecido outras vezes na sala, seu modo veloz e rasteiro de resolver as coisas: indo pra cima, ao invés de meias voltas. Compromisso decidido, apurado no fio da meada.

De modo que dali restei até agora, pendurada. Por horas, a fio.

 Sandra N. Flanzer, inédito

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