Matéria-prima

Ensina-me a receber.
Esticar minhas mãos vazias,
Em busca do trabalho artesanal que é do outro.
Ensina-me presença obreira de aguardos e contornos
Como pontos e vírgulas, distraídos, a fazerem formas.
Ensina-me a suportar ser só sobra de barranco,
Aceitar ver moldar-se escrita em argila alhures.
Acatar – mais que catar – estilhaços de um vaso de barro
E esperar que o vento os una, só e se, sem prévia posição.
Acolher – mais que colher – os vestígios da quebra do pote
E receber do tempo cacos calcados no vaso que vaza, só vazão.
Ensina-me a re-saber pedaços que esqueci para aprender de novo.
Ensina-me a trabalhar esbarrando no vazio do nosso barro barrado.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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