Volta de aranhas

Que não se limpe o teto
Quero as aranhas por perto
Que não se expulse suas teias
Quero as aranhas galgando minhas veias
Que elas se cumpram no canto dos olhos
Que se alojem nas cabeças e corpos
Que circulem nas quinas de ângulo reto
Que teçam enredos com nossos dejetos
Quero suas patas ainda me aranhando
Emaranhando arteiras voltando de férias

Até parasitarem em minhas artérias.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Aranha de hoje

Hoje ela me olhava assim… assim que adentrei a porta da sala do trabalho mais difícil do mundo, para o qual eu era despreparada.

Repara, vê: ela me olhava assim e não se podia determinar onde terminava o corpo dela e começava a pata, onde terminava a pata e começava a sombra.

Olha e vê como ela se dá ao milagre de ser feita de imprecisões tão precisas, como ela se move indiferente enquanto estarreço diante dela.

Um ser assim, dessa natureza, que não pode pertencer a esse mundo, mas que me olha e vê, enquanto já não posso mais me achar nisso que me olha e vê, já não tenho mais as patas nem as pontas dos dedos com as quais encostar no que poderia me dar margem. Ou pé.

Olha e vê: estamos indissociadas, eu e a aranha que me leva pelas águas, diante de quem estremeço aterrorizada e lívida, diante de quem já não posso mais amar, não posso mais comer, não posso mais correr, não posso mais.

Olha e vê através dos meus olhos embaçados: aqui onde estou, às duas da manhã, não há senão o vazio singelo dessa fraca luz, i-lustre iluminando a escuridão da noite, acirrando mais ainda o breu que andava estrategicamente escondido, há tempos, em segredo, apesar da minha farsa de supor-me em dia.

Repara como hoje é preciso romper a ilusão do clarão e se dar à morrer, morrer de medo… Deixar o bicho solto, sem qualquer contorno, apto a nos carregar para onde qualquer córrego quiser.

Sim, hoje: esse tempo de entrega a isso que já estava escrito há meses, tempo de correr – mesmo sem patas – a tempo de entregar ao mundo o que lhe é de direito, antes que se acabe. E se acabou.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

A aranha do meu destino

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir…
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro…
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa, Livro Poesias Inéditas

Email

Artimanha

DSC07479

Pouca coisa
É tão imutável quanto essa sanha:
Nunca cai a aranha.

É da sua natureza
preservar-se quando apanha,
escalando o alizar da janela
até o batente se dobrar à ela.

Dar um prumo vertical à queda:
eis a sua escabrosa habilidade,
a astúcia em burlar pirambeiras
sempre ereta nas íngremes beiras.

Não cair: eis a índole da aranha
escorar-se ágil nas próprias redes
mesmo se subindo pelas paredes.

Poucas coisas
podem ser tão arte e manha
quanto o ardil tecido pela aranha.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Terceira aparição: Ainda Aranha

Por que, Aranha, me deixaste? Deixaste-me pelo quê? Ao som do silêncio profundo na sala escura de só brancos, recebeste hoje a minha já escapada presença com a tua ausência de pontos pretos, Aranha. E Isso arranha.

Onde te escondeste enquanto eu dizia minhas tantas e tontas asneiras, enquanto transbordava de excessos e insuficiências? Dali donde ainda canso à cata de canto, abusiva e bichada, fragilmente emaranhada, em busca da singela rede onde possa, enfim, re-pousar.

Por onde andarás, minha Aranha, tu: ponto fixo que sempre regressa, e cujo retorno, quando avistado, demais assombra. Tu, de quem a saudade me co-move, me re-move, enquanto teço-me ainda em inúteis expressos excessos?

Onde aguardas, quieta e ausente, enquanto, atrás de ti, cá subo pelas paredes? Se ainda é por ti e sobre ti que digo insanidades, descomedimentos e exageros destemperados… Se ainda nada importa senão sumiço e advento de bicho estranho… E se, há tempos, sem que nunca se saiba por que, me deixaste verdadeiramente só. Desde que caí na tua rede.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Segunda aparição: Minha Aranha

Como fazes, Aranha, para viver ali acima, de modo tão plácido, lá no alto de minhas vistas, onde a esquina se ajeita arredondada, de forma e lugar tão acertados? Vejo-a imóvel, dona da teia armada, serena como há de ser todo bicho solto vivo, após embate. Noto, no ponto preto por sobre os brancos, que bem encontraste teu canto. Em contraste, teu canto.

Como aprendeste a se virar, minha Aranha? Quem te ensinou a ser assim, de habilidade certeira como meus dedos jamais serão?

Talvez de inveja eu esteja te amando, Aranha. Pois a inveja é uma forma de amar, quando sobra de não aniquilarmos. Amo-te por estares segura de mim. Quieta no teu canto. Amo-te por teus fios imponderáveis. Amo-te por que te salvam. Porque te seguram, asseguram lugar.

Então, hoje velo tua esquina disposta ao teto. E não deixo ninguém se apossar. Que não se limpe! Que não se extraia tua teia (nem mesmo aquela apartada, cor de cinza). Hoje careço que me guardes, Aranha, que vigies quando digo o que penso enquanto não penso no que digo. Que me faças companhia daí de cima. Tão enredada, ateiada, tão acomodada ao teto, tão livre quanto presa, e tão perto do chão de mim.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Primeira aparição: A Aranha Dali

A Aranha decidida movia-se na minha direção. Mexia os tentáculos com os quais tentava. Até que a notei.

Pouco diferia de como faço quando dou de mexer meus dedos por sobre teclas, compondo qualquer textura. Identifiquei-me então de saída, embora assustada com a astúcia com que realizava, bem sucedida, sua sucessão de movimentos na resoluta trajetória. Na minha direção.

Por resistência, pensei em aniquilá-la. Solução imediatista. Afinal, lá se ia ela com seus bordados, objetivos – nisso em nada assemelhando aos meus. Assim eu estancaria o incômodo e a diferença. Freou-me a preocupação com a sujeira (restos na parede da sala), mas, como permitir que a Aranha seguisse incólume seu fluxo ameaçador? Deixá-la avançar até alcançar-me, interrompendo meu suposto curso, desagradava-me de todo.

Foi quando a mulher que fala com os bichos me sugeriu que a jogasse para lá. Mas, onde ficava ‘lá’? Se lá já era ali mesmo… Onde mais a Aranha poderia estar, se não apoiada nessa mesma parede nossa, e sempre por um fio?

No final das contas, antes que eu pudesse decidir se a interceptaria, a mulher que vez por outra soltava os bichos ofereceu-se pondo as mãos. Mas a Aranha espaçosa invadiu meu lugar, faceira e esperta, como se pertencesse. Como se fosse Dali. Apossou-se do meu frágil encosto, fez seu o meu apoio, camuflou-se por entre cores, mal vista, senão pelo certeiro mover. E a partir daquele instante eu a invejei profundamente. Sua precisão a fazer o que precisa. Sua ligeireza. Seus tentáculos eficazes, feito dedos não dispersos. Logo pra cima de mim – tão difusa e enrolada.

Só depois de fingir ignorá-la e talvez tê-la atropelado é que pude fazer laço com ela. E antes que eu voltasse a supor que por fim a tinha esmagado integrei-me a ela: praticamente introjetei a Aranha, bem como sua linha solta – que, feito cabelo, coçou-me pelo rosto para o resto da vida. E bem na minha cara impregnou-se a Aranha, que já havia aparecido outras vezes na sala, seu modo veloz e rasteiro de resolver as coisas: indo pra cima, ao invés de meias voltas. Compromisso decidido, apurado no fio da meada.

De modo que dali restei até agora, pendurada. Por horas, a fio.

 Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Certos insetos

Que venham as pulgas, as moscas e as vespas;
O piolho, o pernilongo e o percevejo.
Sejam bem-vindas todas as graúdas bestas
E as miúdas, que quase nunca vejo.

Adentrem na sala a barata e o gafanhoto,
Pelo friso da janela, agora aberto.
Que me invadam bichos vivos, e o morto,
Que me infecte todo e qualquer inseto.

Quero a traça traçando meu destino incerto,
Pousar no canto da cigarra e ser formiga,
Quero borboletear por aí, de peito aberto,
Ser abelhuda no veneno da mordida.

Liberem as pestes, que agora tudo é praga!
Entre minha aranha, carrapatos e mosquitos
Está aberta a peçonhenta temporada,
Quero meus grilos dando asas aos meus gritos.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

Email

Uma Esperança – Clarice Lispector

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:

– Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.

– Ela quase não tem corpo, queixei-me.

– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.

– Ela é burrinha, comentou o menino.

– Sei disso, respondi um pouco trágica.

– Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.

– Sei, é assim mesmo.

– Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.

– Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.

– Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:

– É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte…

– Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.

– Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

 Clarice Lispector, Felicidade Clandestina

Email