De véspera

Eu queria que o tempo parasse na véspera do meu aniversário.

Que o tempo congelasse nesse dia, que não corresse nem me fizesse correr… Para que assim ele deixasse de me solicitar tantas coisas, por um lado, e de me roubar umas tantas outras, por outro…

Porque nesse dia eternizado quem sabe haveria alguém me aguardando, quem sabe seria o dia em que alguém pudesse estancar frente a esse escasso desejar-me. Eu queria que o tempo petrificasse nessa condição que nunca tive: a espera da minha chegada.

Queria que o mundo parasse de girar nesse dia, para que ele se mantivesse para sempre no anseio de uma comemoração. Nada melhor! Na expectativa do bolo, seus pedaços inexatos… Na surpresa do doce e seus confeitos mirabolantes, despencando da boca na primeira desenfreada mordida… E naquela bala, que sempre abala, que pode mudar o mundo com sua despretensiosa dose de doçura.

Eu queria ouvir novamente o apito da língua de sogra na hora do parabéns, ver a luz de estrelinhas que piscam ofuscando, a sustar a vista de tão próximas… Queria rir ao som de “com quem será?”, bem ao lado do meu homem… que, no entanto, há tanto tempo, já é. Queria voltar atrás pra festejar o que apostei que jamais se realizaria.

Queria que as crianças que eu tive encontrassem a criança que eu fui, e que, juntas, se embrenhassem nessa ciranda impossível que o tempo tratou de promover e despistar. Queria que elas escutassem a menina que ainda gargalha com coisas singelas, feito um confete que se rouba do chão. Porque só sendo criança para se prestar a olhar para baixo e se maravilhar, só sendo criança para se agachar e recolher o essencial, que sempre se encontra decaído, mas enfeitando o piso, bastaria ver.

Eu queria ter um dia de paz e pais que se ocupassem desse dia, incumbidos de alegrar-me pelo advento da minha própria chegada. Queria ter uns xis amigos para convidar, para que testemunhassem o quanto a vida toda pode estar ofertada na simplicidade da espera de um acontecimento.

E que o dia seguinte pudesse nunca chegar. Que preparar a festa fosse efetivamente a validação de uma vida que já tive, a confirmação de ter sobrevivido, ainda que tão sem cerimônia, a co-memoração de um caminho sem conservas e sem defesas, trilhado com os pés descalços e as mãos em carne viva.

Mas o tempo passa e hoje só o que tenho é o dia de hoje.

Sandra N. Flanzer, inédito

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