Só matizar

Hoje ela não teve tonteiras, não desmaiou, não teve taquicardia, não teve falta de ar, não brigou, não chutou a mesa, não saiu correndo, não comeu, não falou, não revestiu, não balançou a cabeça em sinal de não.

Hoje ela não escapou de trabalhar, mas também não foi bem sucedida. Nem estatelada na cadeira e nem performática pelo salão.
E ninguém nem notou o feito minúsculo. E o mundo girou idêntico, sem pausa para reverenciar, enquanto um cheiro de concreto lhe ultrapassava as narinas.

Estaria ela na vida como nunca, ou morrera sem tela, sem tê-la?

As únicas palavras que chegaram, esfumaçaram-se em suas mãos sem tato, revelando: “hoje não tenho possibilidade”. E ela não pôde largá-las, embora só as tocasse de viés. E num instante de nuance, sem poder, acatou: “Hoje, o impossível”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Louco motiva

Se, no caminho, topar com rocha
Que cause um baque no trem de carga
Que o acidente envergue a carcaça
Que se queimem os cabos na tocha
Que se desprendam, gerando descarga
Que se acelerem, a toda, as marchas
Que se apaguem os faróis e as marcas
Que os vagões vaguem, perdidos do freio
E que o trem desabe do desfiladeiro
Provando, enfim, a que veio.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Penal

Pena não ter-se lido
minha frase principal
marcante do bem e do mal
talhando, a cada grunhido,
minha escrita sentença cabal.

Pena, pena, esse processo penal
estampado na minha testa
mas que de mim é escondido
enquanto meu crime atesta:
agradar a quem me detesta.

Delito de berço e sem perdão
meu dolo, difundida infração
que só a mim condena:
imprimir uma solitária festa
funesta! que resta… que pena…

Vaga, vaga, alma inútil e pequena
cravando, gravando a frase final
cativa, tatuagem em espiral
da mesma condição que encena:
escrita perpétua em prisão penal.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Nascente da dor

Da dor extraio o ato que só faço se não escolho.

A dor – companheira infalível quando se nasce com defeito na alma – não pode ser combatida. É vencedora ímpar dos desmandos da existência.

A dor, mestre de todos os tempos, escolhe soberana quando e se vai ou não brotar de novo, quando e se vai ou não botar um ovo. Estar à mercê, de cócoras, entregue ao acaso a ponto de não contabilizar, eis quando a dor se faz mais autêntica. E nunca se sabe se é da dor pré-coisa que se está padecendo.

Não há parto sem dor, por mais eficazes os avanços da ciência. É verdade que muitas coisas caem no mundo desde um ventre indolor. O que não significa de modo algum que tenham nascido.

Sandra N. Flanzer, inédito

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In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bicaIMG_7775
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa junto.
Perder, perder, ceder ao Outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.

Sandra N. Flanzer, inédito

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A fuga

De quarta-feira tenho só feição. Gosto de moça praticada e de estribar comprido. Gosto de tordos com rio e de ocelados gaviões-fumaça. Saí do poder de meu padrinho com 18 anos. Correr as cercas do mundo. E pois! Rosado não é o canto do sabiá que vem de longe? Fui no aceno do pássaro. Exceção não se abriu pra mim. Nadei sem água por baixo. No quartel fui anspeçada. Puxei muar de sargento. Vi bugio tocar comércio. Tirei urinol de padre. Usei égua de sacristão. Peguei reza de empreitada. Hoje benzo bicheiras a distância. Desmancho mal de prepúcio. Porém uso os mistérios com cuidado. Porque ninguém não sabe ainda adonde que começa o fim do arcano nem o começo da roda. Hoje estou comparado com árvore. Sofrimento alcandorou-me. Meu orgulho ganhou dejetos. Vou nascendo de meu vazio. Só narro meus nascimentos. Sou trinado por lírio como os brejos. É nos loucos que grassam luarais. Sei muitas coisas das cousas. Hai muitas importâncias sem ciências. Sei que os rios influem nas plumagens das aves. Que vespas de conas frondosas produzem mel azulado. E as casas com rio nos fundos adquirem gosto de infância. Isso eu sei de me ser. Falando é que não se entende. Difícil é pregar moringas em paredes. E totalmente eu prego. Caminho de urubu pois não tem pedras. Não somo com detrimentos. No mais são caracóis e cios de roseiras.

Manoel de Barros, Poesia Completa

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Fracasso

De grão em grão
De maço em maço
Cava-se o abismo do meu fracasso.

Do ar ao chão
Do presente, o laço
Que tanto perco quanto mais caço.

Eis meu refrão
Preso ao rechaço:
Fome de peão, mas fruta no bagaço.

Sina de solidão
Menina em busca do traço
Um pé vai ao não, outro ao novo passo.

Sandra N. Flanzer, inédito

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