Aranha de hoje

Hoje ela me olhava assim… assim que adentrei a porta da sala do trabalho mais difícil do mundo, para o qual eu era despreparada.

Repara, vê: ela me olhava assim e não se podia determinar onde terminava o corpo dela e começava a pata, onde terminava a pata e começava a sombra.

Olha e vê como ela se dá ao milagre de ser feita de imprecisões tão precisas, como ela se move indiferente enquanto estarreço diante dela.

Um ser assim, dessa natureza, que não pode pertencer a esse mundo, mas que me olha e vê, enquanto já não posso mais me achar nisso que me olha e vê, já não tenho mais as patas nem as pontas dos dedos com as quais encostar no que poderia me dar margem. Ou pé.

Olha e vê: estamos indissociadas, eu e a aranha que me leva pelas águas, diante de quem estremeço aterrorizada e lívida, diante de quem já não posso mais amar, não posso mais comer, não posso mais correr, não posso mais.

Olha e vê através dos meus olhos embaçados: aqui onde estou, às duas da manhã, não há senão o vazio singelo dessa fraca luz, i-lustre iluminando a escuridão da noite, acirrando mais ainda o breu que andava estrategicamente escondido, há tempos, em segredo, apesar da minha farsa de supor-me em dia.

Repara como hoje é preciso romper a ilusão do clarão e se dar à morrer, morrer de medo… Deixar o bicho solto, sem qualquer contorno, apto a nos carregar para onde qualquer córrego quiser.

Sim, hoje: esse tempo de entrega a isso que já estava escrito há meses, tempo de correr – mesmo sem patas – a tempo de entregar ao mundo o que lhe é de direito, antes que se acabe. E se acabou.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Comentário sobre “Aranha de hoje

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>