Carta para o Ano Novo

Bem-vindo, sagrado Ano Novo.img_0537

Te espero sentada, já em final de festa, exausta de tanto girar por entre as notícias indigestas que seu antecessor, que ora se despede, teve o mau gosto de espalhar.

Te aguardo aqui, num lugar onde nunca estive, visto que os ciclos, embora se repitam, não retornam ao mesmo ponto.

Espero te encontrar com contentamento e disposição, pois há chão pela frente e é preciso fibra para dispensar o ordinário, e gana para manter-se no essencial.

Voto para que você me conceda tarefas. Não me aborrece o intenso trabalho, mas torço para que ele venha aliado ao tempo justo das últimas manhãs.

Não me refiro à pressa, sedutora e enganosa, que propaga agilidade enquanto exacerba o atraso. Mas à urgência, essa sim de boa estirpe e rara, que nos obriga a comparecer precisamente onde somos chamados.

Estarei aqui para o que der e vier. Mas não me venha com aquelas listas intermináveis, que me mantêm refém das metas. O preço de desgarrar-se dessas algemas não vale nem um suspiro no mundo ideal que elas prometem.

Traga-me, Novo Ano, a quentura desmedida dos domingos de praia, a leveza tenra das tardes de inverno e o frescor da primeiríssima lua cheia.

Ah, e por favor: não me apareça com mais eletrodomésticos para consertar.

Que pelo menos uma vez por mês você me lembre que a vida é de passagem, que o que importa se abre para tornar a se fechar, que a força da flor está na sua brevidade, que a beleza do sol poente deve à finitude seu melhor irradiar.

Que você desista de me fazer cruzar os meses num piscar de olhos e me permita o privilégio da ilusão tola de que dará tempo.

Sei que ao final, como agora, estaremos fazendo a contagem dos mortos que julgávamos imprescindíveis. Apesar disso, deposito em você meus melhores votos, feito moça à espera do carteiro que trará o convite, a boa nova na abertura do envelope.

Te espero na ponta do lápis, Ano Novo, com a expectativa purificada da criança que chora de gratidão diante do caderno em branco recém ganhado.

Te vislumbro no familiar encontro, como quem se reconhece no nome surtido da boca do outro pela primeira vez. Te aguardo com a alegria ingênua de quem prova uma nova língua.

Te desejo como grávida que se encaminha ao parto normal: na aposta do desfecho, ainda que com dor. Avisada de que a dor é um sinal de vida, pois sem ela o corpo custa a saber da coisa quando verdade.

Finalmente te aguardo, Novo Ano, arrumada com laço de fita de seda na cabeça, meu melhor vestido branco (que hoje me aperta dos lados), e toda a pompa digna da chegada. Embora já tenha vivido o bastante para saber que todo enfeite é vão, pois o que você exige de mim é coragem.

Lembrando por instantes que é das quedas que se erguem os melhores santuários, que é dos tropeços que se instalam os mais sólidos caminhos, e que é das brechas que se extraem as mais reais experiências. Para que o novo vingue, nascente na manhã do amanhã, confirmando mais uma vez que a vida não está onde parece, mas sim onde perece.

Publicado em Revista de domingo, O Globo, em 08/01/2017

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