Primeira aparição: A Aranha Dali

A Aranha decidida movia-se na minha direção. Mexia os tentáculos com os quais tentava. Até que a notei.

Pouco diferia de como faço quando dou de mexer meus dedos por sobre teclas, compondo qualquer textura. Identifiquei-me então de saída, embora assustada com a astúcia com que realizava, bem sucedida, sua sucessão de movimentos na resoluta trajetória. Na minha direção.

Por resistência, pensei em aniquilá-la. Solução imediatista. Afinal, lá se ia ela com seus bordados, objetivos – nisso em nada assemelhando aos meus. Assim eu estancaria o incômodo e a diferença. Freou-me a preocupação com a sujeira (restos na parede da sala), mas, como permitir que a Aranha seguisse incólume seu fluxo ameaçador? Deixá-la avançar até alcançar-me, interrompendo meu suposto curso, desagradava-me de todo.

Foi quando a mulher que fala com os bichos me sugeriu que a jogasse para lá. Mas, onde ficava ‘lá’? Se lá já era ali mesmo… Onde mais a Aranha poderia estar, se não apoiada nessa mesma parede nossa, e sempre por um fio?

No final das contas, antes que eu pudesse decidir se a interceptaria, a mulher que vez por outra soltava os bichos ofereceu-se pondo as mãos. Mas a Aranha espaçosa invadiu meu lugar, faceira e esperta, como se pertencesse. Como se fosse Dali. Apossou-se do meu frágil encosto, fez seu o meu apoio, camuflou-se por entre cores, mal vista, senão pelo certeiro mover. E a partir daquele instante eu a invejei profundamente. Sua precisão a fazer o que precisa. Sua ligeireza. Seus tentáculos eficazes, feito dedos não dispersos. Logo pra cima de mim – tão difusa e enrolada.

Só depois de fingir ignorá-la e talvez tê-la atropelado é que pude fazer laço com ela. E antes que eu voltasse a supor que por fim a tinha esmagado integrei-me a ela: praticamente introjetei a Aranha, bem como sua linha solta – que, feito cabelo, coçou-me pelo rosto para o resto da vida. E bem na minha cara impregnou-se a Aranha, que já havia aparecido outras vezes na sala, seu modo veloz e rasteiro de resolver as coisas: indo pra cima, ao invés de meias voltas. Compromisso decidido, apurado no fio da meada.

De modo que dali restei até agora, pendurada. Por horas, a fio.

 Sandra N. Flanzer, inédito

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