Caminho das perdas, ou menos

Vestia cascas forradas, arrumada para o Tempo. Fazia frio de início, daí as camadas encobertas. Agasalhava-se de densas bordas sobrepostas que a escondiam de si e de alguns.

Até adentrar no caminho das perdas, de pegada.

O primeiro adereço foi preciso despregar arrancando, pois solidão ofuscada às avessas disfarçava o contrapeso carregado. Seguiu despelando – uma a uma – envolventes vestes intermediárias que só trajavam trajetos decaídos. Cedeu a molambos indumentárias vistosas. Desprendeu-se das tropas de roupas, dos trapos de loucas, e das pencas despencou caminhando. Mais um passo e largou a ferro o forro, último vestígio de brilho armado para valer e velar.

Menos sacada, sacou da face o último véu. Despida, despedida de enfatuação, de fato partiu – pelada de sentidos e de ínfimo infestada. Menos enfeite, menos enferma.

Ao final do percurso tombou fatigada, desnuda e feia de frio. Sem adornos, adormeceu viva. Sonhava panos para manga, em prantos. E de pronto desprovida, ao menos desvelada, sem acordo, acordou bem mais perto de perder-se.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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