Escurta

Terminara aquela conversa falando da peça de tecido. Que se alongara em escolha difícil entre o que vestia bem e o mais em conta. E ali se cortou o fio da fala.

No encontro seguinte, antes mesmo dos cumprimentos formais, emendou o resto da frase. De tudo, o que mais encantava era a continuidade da comunicação. Pois era como se não houvesse fim de semana, era como se o ‘entre’ fosse sempre um convite à entrada, sem fatal separação; era como se aquela escuta que a acompanhava por sobre histórias comezinhas morasse ali bem rente, permanentemente. Ao mesmo tempo em que a escansão e o intervalo consistiam o fundamental da vida entre as letras.

E era como se aquela escuta habitasse o bocal do seu discurso, como se não dormisse, esperando-a no laço, sempre que abrisse o bico, como se não comesse ou não tivesse necessidades. Aguardava o dizer no umbral da sua boca, portal de saída das palavras, mas sempre na borda da língua, ali onde a escuta encurta a fala, e onde a fala, com fio, confia.

Sandra N. Flanzer, inédito

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