Pano de fundo

Nada quanto ao que se faça. Nada quanto ao que se teça. O que é vivo dá panos pra manga e gera tessitura, apenas isso. Às vezes, a borda transborda. E, justo porque morro no ponto final, insisto: sinto as sobras do tecido pinicando a pele. Essa rede, feita entre nós, é o lugar mais perto daquilo que ainda posso chamar de viver.

Feneço no fim da picada da agulha que fura irreverente, penetrando a superfície de cada desencontro. Cato a unidade iludida na densa tela, fazenda fundamental que me liga à você. Às vezes posso prescindir da liga, às vezes padeço. Pois é menos solitário se costuro, no véu do texto, alguma textura. Suavemente enganada no pano que roça meu rosto, amor tecido.

Trago na memória das minhas mãos fazentes cada veio falhado, na tentação de prender os pontos, a caber nessa nossa espessa cosedura. Queria-o meu, esse pano tramado, desejava-o só pra mim. E, mesmo supondo ser furada, acredito loucamente na precisão da agulha.

Uns dizem que é destreza, mas o que tenho é defeito na alma. Não passa quando o vento arreda o véu. Aumentam as fendas infecháveis por onde cava a agulha, pinicado ainda mais a alma de trapo toda, entregue ao repetitivo fazer de cada vez.

Trago comigo uma dor de existir que é pano de fundo. Uma dor que é pano de mundo. Trago no avental do corpo essa morte plana. E há, para além de todos os meus planos, esse pano imundo.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

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