Só matizar

Hoje ela não teve tonteiras, não desmaiou, não teve taquicardia, não teve falta de ar, não brigou, não chutou a mesa, não saiu correndo, não comeu, não falou, não revestiu, não balançou a cabeça em sinal de não.

Hoje ela não escapou de trabalhar, mas também não foi bem sucedida. Nem estatelada na cadeira e nem performática pelo salão.
E ninguém nem notou o feito minúsculo. E o mundo girou idêntico, sem pausa para reverenciar, enquanto um cheiro de concreto lhe ultrapassava as narinas.

Estaria ela na vida como nunca, ou morrera sem tela, sem tê-la?

As únicas palavras que chegaram, esfumaçaram-se em suas mãos sem tato, revelando: “hoje não tenho possibilidade”. E ela não pôde largá-las, embora só as tocasse de viés. E num instante de nuance, sem poder, acatou: “Hoje, o impossível”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Nascente da dor

Da dor extraio o ato que só faço se não escolho.

A dor – companheira infalível quando se nasce com defeito na alma – não pode ser combatida. É vencedora ímpar dos desmandos da existência.

A dor, mestre de todos os tempos, escolhe soberana quando e se vai ou não brotar de novo, quando e se vai ou não botar um ovo. Estar à mercê, de cócoras, entregue ao acaso a ponto de não contabilizar, eis quando a dor se faz mais autêntica. E nunca se sabe se é da dor pré-coisa que se está padecendo.

Não há parto sem dor, por mais eficazes os avanços da ciência. É verdade que muitas coisas caem no mundo desde um ventre indolor. O que não significa de modo algum que tenham nascido.

Sandra N. Flanzer, inédito

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A fuga

De quarta-feira tenho só feição. Gosto de moça praticada e de estribar comprido. Gosto de tordos com rio e de ocelados gaviões-fumaça. Saí do poder de meu padrinho com 18 anos. Correr as cercas do mundo. E pois! Rosado não é o canto do sabiá que vem de longe? Fui no aceno do pássaro. Exceção não se abriu pra mim. Nadei sem água por baixo. No quartel fui anspeçada. Puxei muar de sargento. Vi bugio tocar comércio. Tirei urinol de padre. Usei égua de sacristão. Peguei reza de empreitada. Hoje benzo bicheiras a distância. Desmancho mal de prepúcio. Porém uso os mistérios com cuidado. Porque ninguém não sabe ainda adonde que começa o fim do arcano nem o começo da roda. Hoje estou comparado com árvore. Sofrimento alcandorou-me. Meu orgulho ganhou dejetos. Vou nascendo de meu vazio. Só narro meus nascimentos. Sou trinado por lírio como os brejos. É nos loucos que grassam luarais. Sei muitas coisas das cousas. Hai muitas importâncias sem ciências. Sei que os rios influem nas plumagens das aves. Que vespas de conas frondosas produzem mel azulado. E as casas com rio nos fundos adquirem gosto de infância. Isso eu sei de me ser. Falando é que não se entende. Difícil é pregar moringas em paredes. E totalmente eu prego. Caminho de urubu pois não tem pedras. Não somo com detrimentos. No mais são caracóis e cios de roseiras.

Manoel de Barros, Poesia Completa

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De tanto perder

Quando os moventes chagaram, encontraram-na estirada. Na maca, sem roupas, o peso fora das medidas. As mãos gastas feito pele de bicho, do corpo a superfície descamada, unhas sujas e por fazer sem ter pra quem.

Já havia alcançado a sala sem forças, despreparada. Os badulaques, outrora úteis nos bailes onde se sentia convidada, já lhe haviam sido arrancados. De saída eram puídas as vestes datadas com que se escondia, e os acessórios, gastos nas infames entradas, há tempos não reluziam mais.

De modo que já era sem pertences e em frangalhos quando adentrou a sala indigente, pra nunca mais sair.

As tripas à mostra provavam a batalha; o cheiro do sangue impregnava a ponto de imprimir o gosto na boca. De tão vermelho – último resquício de vida que ainda decorria – a arrancar-lhe os últimos prognósticos.

Quando os agentes intervieram, já não encontraram sob a luz fria nem mesmo a mulher que ela havia sido estirada na maca aguardando sem fé os últimos cuidados; nem mesmo a beleza desgastada da viúva em perdição que ela havia podido ser com fulgor.

“Fraca sou” – ouviu-se ainda na sala o fiapo de voz que ninguém mais reconhecia. “Fracassou”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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De véspera

Eu queria que o tempo parasse na véspera do meu aniversário.

Que o tempo congelasse nesse dia, que não corresse nem me fizesse correr… Para que assim ele deixasse de me solicitar tantas coisas, por um lado, e de me roubar umas tantas outras, por outro…

Porque nesse dia eternizado quem sabe haveria alguém me aguardando, quem sabe seria o dia em que alguém pudesse estancar frente a esse escasso desejar-me. Eu queria que o tempo petrificasse nessa condição que nunca tive: a espera da minha chegada.

Queria que o mundo parasse de girar nesse dia, para que ele se mantivesse para sempre no anseio de uma comemoração. Nada melhor! Na expectativa do bolo, seus pedaços inexatos… Na surpresa do doce e seus confeitos mirabolantes, despencando da boca na primeira desenfreada mordida… E naquela bala, que sempre abala, que pode mudar o mundo com sua despretensiosa dose de doçura.

Eu queria ouvir novamente o apito da língua de sogra na hora do parabéns, ver a luz de estrelinhas que piscam ofuscando, a sustar a vista de tão próximas… Queria rir ao som de “com quem será?”, bem ao lado do meu homem… que, no entanto, há tanto tempo, já é. Queria voltar atrás pra festejar o que apostei que jamais se realizaria.

Queria que as crianças que eu tive encontrassem a criança que eu fui, e que, juntas, se embrenhassem nessa ciranda impossível que o tempo tratou de promover e despistar. Queria que elas escutassem a menina que ainda gargalha com coisas singelas, feito um confete que se rouba do chão. Porque só sendo criança para se prestar a olhar para baixo e se maravilhar, só sendo criança para se agachar e recolher o essencial, que sempre se encontra decaído, mas enfeitando o piso, bastaria ver.

Eu queria ter um dia de paz e pais que se ocupassem desse dia, incumbidos de alegrar-me pelo advento da minha própria chegada. Queria ter uns xis amigos para convidar, para que testemunhassem o quanto a vida toda pode estar ofertada na simplicidade da espera de um acontecimento.

E que o dia seguinte pudesse nunca chegar. Que preparar a festa fosse efetivamente a validação de uma vida que já tive, a confirmação de ter sobrevivido, ainda que tão sem cerimônia, a co-memoração de um caminho sem conservas e sem defesas, trilhado com os pés descalços e as mãos em carne viva.

Mas o tempo passa e hoje só o que tenho é o dia de hoje.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Aranha de hoje

Hoje ela me olhava assim… assim que adentrei a porta da sala do trabalho mais difícil do mundo, para o qual eu era despreparada.

Repara, vê: ela me olhava assim e não se podia determinar onde terminava o corpo dela e começava a pata, onde terminava a pata e começava a sombra.

Olha e vê como ela se dá ao milagre de ser feita de imprecisões tão precisas, como ela se move indiferente enquanto estarreço diante dela.

Um ser assim, dessa natureza, que não pode pertencer a esse mundo, mas que me olha e vê, enquanto já não posso mais me achar nisso que me olha e vê, já não tenho mais as patas nem as pontas dos dedos com as quais encostar no que poderia me dar margem. Ou pé.

Olha e vê: estamos indissociadas, eu e a aranha que me leva pelas águas, diante de quem estremeço aterrorizada e lívida, diante de quem já não posso mais amar, não posso mais comer, não posso mais correr, não posso mais.

Olha e vê através dos meus olhos embaçados: aqui onde estou, às duas da manhã, não há senão o vazio singelo dessa fraca luz, i-lustre iluminando a escuridão da noite, acirrando mais ainda o breu que andava estrategicamente escondido, há tempos, em segredo, apesar da minha farsa de supor-me em dia.

Repara como hoje é preciso romper a ilusão do clarão e se dar à morrer, morrer de medo… Deixar o bicho solto, sem qualquer contorno, apto a nos carregar para onde qualquer córrego quiser.

Sim, hoje: esse tempo de entrega a isso que já estava escrito há meses, tempo de correr – mesmo sem patas – a tempo de entregar ao mundo o que lhe é de direito, antes que se acabe. E se acabou.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Terceira aparição: Ainda Aranha

Por que, Aranha, me deixaste? Deixaste-me pelo quê? Ao som do silêncio profundo na sala escura de só brancos, recebeste hoje a minha já escapada presença com a tua ausência de pontos pretos, Aranha. E Isso arranha.

Onde te escondeste enquanto eu dizia minhas tantas e tontas asneiras, enquanto transbordava de excessos e insuficiências? Dali donde ainda canso à cata de canto, abusiva e bichada, fragilmente emaranhada, em busca da singela rede onde possa, enfim, re-pousar.

Por onde andarás, minha Aranha, tu: ponto fixo que sempre regressa, e cujo retorno, quando avistado, demais assombra. Tu, de quem a saudade me co-move, me re-move, enquanto teço-me ainda em inúteis expressos excessos?

Onde aguardas, quieta e ausente, enquanto, atrás de ti, cá subo pelas paredes? Se ainda é por ti e sobre ti que digo insanidades, descomedimentos e exageros destemperados… Se ainda nada importa senão sumiço e advento de bicho estranho… E se, há tempos, sem que nunca se saiba por que, me deixaste verdadeiramente só. Desde que caí na tua rede.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Segunda aparição: Minha Aranha

Como fazes, Aranha, para viver ali acima, de modo tão plácido, lá no alto de minhas vistas, onde a esquina se ajeita arredondada, de forma e lugar tão acertados? Vejo-a imóvel, dona da teia armada, serena como há de ser todo bicho solto vivo, após embate. Noto, no ponto preto por sobre os brancos, que bem encontraste teu canto. Em contraste, teu canto.

Como aprendeste a se virar, minha Aranha? Quem te ensinou a ser assim, de habilidade certeira como meus dedos jamais serão?

Talvez de inveja eu esteja te amando, Aranha. Pois a inveja é uma forma de amar, quando sobra de não aniquilarmos. Amo-te por estares segura de mim. Quieta no teu canto. Amo-te por teus fios imponderáveis. Amo-te por que te salvam. Porque te seguram, asseguram lugar.

Então, hoje velo tua esquina disposta ao teto. E não deixo ninguém se apossar. Que não se limpe! Que não se extraia tua teia (nem mesmo aquela apartada, cor de cinza). Hoje careço que me guardes, Aranha, que vigies quando digo o que penso enquanto não penso no que digo. Que me faças companhia daí de cima. Tão enredada, ateiada, tão acomodada ao teto, tão livre quanto presa, e tão perto do chão de mim.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Primeira aparição: A Aranha Dali

A Aranha decidida movia-se na minha direção. Mexia os tentáculos com os quais tentava. Até que a notei.

Pouco diferia de como faço quando dou de mexer meus dedos por sobre teclas, compondo qualquer textura. Identifiquei-me então de saída, embora assustada com a astúcia com que realizava, bem sucedida, sua sucessão de movimentos na resoluta trajetória. Na minha direção.

Por resistência, pensei em aniquilá-la. Solução imediatista. Afinal, lá se ia ela com seus bordados, objetivos – nisso em nada assemelhando aos meus. Assim eu estancaria o incômodo e a diferença. Freou-me a preocupação com a sujeira (restos na parede da sala), mas, como permitir que a Aranha seguisse incólume seu fluxo ameaçador? Deixá-la avançar até alcançar-me, interrompendo meu suposto curso, desagradava-me de todo.

Foi quando a mulher que fala com os bichos me sugeriu que a jogasse para lá. Mas, onde ficava ‘lá’? Se lá já era ali mesmo… Onde mais a Aranha poderia estar, se não apoiada nessa mesma parede nossa, e sempre por um fio?

No final das contas, antes que eu pudesse decidir se a interceptaria, a mulher que vez por outra soltava os bichos ofereceu-se pondo as mãos. Mas a Aranha espaçosa invadiu meu lugar, faceira e esperta, como se pertencesse. Como se fosse Dali. Apossou-se do meu frágil encosto, fez seu o meu apoio, camuflou-se por entre cores, mal vista, senão pelo certeiro mover. E a partir daquele instante eu a invejei profundamente. Sua precisão a fazer o que precisa. Sua ligeireza. Seus tentáculos eficazes, feito dedos não dispersos. Logo pra cima de mim – tão difusa e enrolada.

Só depois de fingir ignorá-la e talvez tê-la atropelado é que pude fazer laço com ela. E antes que eu voltasse a supor que por fim a tinha esmagado integrei-me a ela: praticamente introjetei a Aranha, bem como sua linha solta – que, feito cabelo, coçou-me pelo rosto para o resto da vida. E bem na minha cara impregnou-se a Aranha, que já havia aparecido outras vezes na sala, seu modo veloz e rasteiro de resolver as coisas: indo pra cima, ao invés de meias voltas. Compromisso decidido, apurado no fio da meada.

De modo que dali restei até agora, pendurada. Por horas, a fio.

 Sandra N. Flanzer, inédito

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Corte da Tesoura

Tal como no apólogo machadiano, a avante agulha apontava augúrios, erguida de pontiaguda empáfia, frente à linha. Voltava-se para a subalterna e zombava-a de insignificância, justificando, em inchada superioridade, ser ela quem abria os caminhos. Gabava-se de estar sempre à frente, furando, guiando, indicando a direção, e cutucava a pobre linha que pedia passagem, em espetada provocação.

A linha, por sua vez, desfiava seu carretel sobre a peleja. De espírito enroscado, atrelada no rolo, dava corda à disputa novelada. Perdendo a linha, alegava expandir-se prosa ao passear costurada em vestes nobres, enquanto a outra se enfurnava numa cesta de costura embromada.

Pois ficariam assim até o infinito, buscando provar uma à outra seu valor no mundo, vociferando pleitos para o nada, não fosse o repentino despontar da fria e prata Tesoura. Para decidir tal embaraço entre linha e agulha só mesmo um duro golpe nessa teima que a Tesoura parecia disposta a parar, aparando.

Baque rente ao campo onde se dava a controvérsia infindável (gancho eterno sem ponto de finda), realizou a Tesoura a incisão, fazendo cintilar, no agudo do gume, lugar retalhado: eclodiu um antes e um depois, um fora e um dentro, aberto e fechado, e a linha e a agulha num vão rebaixaram-se, apartadas.

Sem cortesia, a poda deu-se do córtex ao cordão, cravando a Tesoura um sulco no real do tecido tecido por ela. Pano de fundo para a tesa Tesoura interceptar, precisa, desbastando – num só ato – tela, trama, tessitura e forro, tudo destacando e restando apenas trapo.

De corte em corte hoje consiste a Tesoura decisivo lugar nesse mundo, interrompendo o embate infinito de forças travado, vez por outra, entre agulha e linha. Seu talho inaugura formas, fia fios soltos e traduz farrapos em panos proveitos, sempre fazendo fazendas.

E o fio cortante da lâmina Tesoura é tesouro que Machado também permite rasgar.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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