Dois gumes

Trago em mim dois lumes

Um me clareia o caminho

O outro me pede que esfume.

 

Trago em mim o farol e o estrume.

 

Trago também duas pontes:

Uma a ponta pra quando

a outra me alça pra onde.

 

São dois os meus trabalhos

Num, devoro a calma

No outro, a pressa retalho.

 

Com as duas mãos me jogam o baralho.

 

Tenho ainda duas pernas

Disjuntas – o infinito no meio

Apartam-se, apertam-se nelas

As farpas da faca-bloqueio.

 

Uma faz que não, outra diz a que veio.

 

Apresento duas caras:

Uma é polpa, a outra se poupa

Trago, mas drago, a essência das frutas raras

Visto, mas dispo, a esfarrapada roupa.

 

Esse duplo em corte se assume

Pelos talhos, passam dois gumes

Fazedores do inciso sem fim:

Um doeu, outro do mim.

 

Sandra N Flanzer, inédito

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Passagem

Da ancoragem à coragem
Da adicção à dicção
De um dizer que não seja miragem
A um fazer que não seja vão.

Do somatizar ao só matizar
De ver comprido ao dever cumprido
Da boca voraz ao pé do ouvido
Do doer ao doar, da mão ao pão.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Porta

Sempre que saio por esta porta que não abro
deixo um passado que insiste em ser advir
Pois se esta porta não acolhe futuro imediato
a mim importa o que ela escolhe concluir
 
Sei que toda passagem feita é derradeira
sei também que nada resta, pois de fato
ao atravessá-la, abandono sorrateira
as devidas horas em que me faço em ato
 
Assim contorno a maçaneta que me expulsa
dou voltas na chave desta porta que não cede
saio de banda, disfarçando o que ainda pulsa
finjo não-retorno, negando o que ainda pede.

Sandra N. Flanzer, in “a pa-lavra”

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Louco motiva

Se, no caminho, topar com rocha
Que cause um baque no trem de carga
Que o acidente envergue a carcaça
Que se queimem os cabos na tocha
Que se desprendam, gerando descarga
Que se acelerem, a toda, as marchas
Que se apaguem os faróis e as marcas
Que os vagões vaguem, perdidos do freio
E que o trem desabe do desfiladeiro
Provando, enfim, a que veio.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Penal

Pena não ter-se lido
minha frase principal
marcante do bem e do mal
talhando, a cada grunhido,
minha escrita sentença cabal.

Pena, pena, esse processo penal
estampado na minha testa
mas que de mim é escondido
enquanto meu crime atesta:
agradar a quem me detesta.

Delito de berço e sem perdão
meu dolo, difundida infração
que só a mim condena:
imprimir uma solitária festa
funesta! que resta… que pena…

Vaga, vaga, alma inútil e pequena
cravando, gravando a frase final
cativa, tatuagem em espiral
da mesma condição que encena:
escrita perpétua em prisão penal.

Sandra N. Flanzer, inédito

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In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bicaIMG_7775
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa junto.
Perder, perder, ceder ao Outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.

Sandra N. Flanzer, inédito

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