Penal

Pena não ter-se lido
minha frase principal
marcante do bem e do mal
talhando, a cada grunhido,
minha escrita sentença cabal.

Pena, pena, esse processo penal
estampado na minha testa
mas que de mim é escondido
enquanto meu crime atesta:
agradar a quem me detesta.

Delito de berço e sem perdão
meu dolo, difundida infração
que só a mim condena:
imprimir uma solitária festa
funesta! que resta… que pena…

Vaga, vaga, alma inútil e pequena
cravando, gravando a frase final
cativa, tatuagem em espiral
da mesma condição que encena:
escrita perpétua em prisão penal.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email

Diário de Alma

No começo, a casa vazia:
O café que ninguém fazia,
A menina acuada ao medo
Coado no cedo do dia.

No almoço, a casa tremia:
Fantasmas que só a moça via
De fome, ao moço devorava
De brava, a sopa dava azia.

À janta, a mulher cedeu
A manta que erguia o breu.
Na casa, se deu família
E as almas tornaram-se filhas.

E hoje, a jovem senhora
À ceia, vagando sem hora,
Anseia o espírito de agora
No seio da casa vazia.

Sandra N. Flanzer, inédito

Email