Penal

Pena não ter-se lido
minha frase principal
marcante do bem e do mal
talhando, a cada grunhido,
minha escrita sentença cabal.

Pena, pena, esse processo penal
estampado na minha testa
mas que de mim é escondido
enquanto meu crime atesta:
agradar a quem me detesta.

Delito de berço e sem perdão
meu dolo, difundida infração
que só a mim condena:
imprimir uma solitária festa
funesta! que resta… que pena…

Vaga, vaga, alma inútil e pequena
cravando, gravando a frase final
cativa, tatuagem em espiral
da mesma condição que encena:
escrita perpétua em prisão penal.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Fracasso

De grão em grão
De maço em maço
Cava-se o abismo do meu fracasso.

Do ar ao chão
Do presente, o laço
Que tanto perco quanto mais caço.

Eis meu refrão
Preso ao rechaço:
Fome de peão, mas fruta no bagaço.

Sina de solidão
Menina em busca do traço
Um pé vai ao não, outro ao novo passo.

Sandra N. Flanzer, inédito

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De tanto perder

Quando os moventes chagaram, encontraram-na estirada. Na maca, sem roupas, o peso fora das medidas. As mãos gastas feito pele de bicho, do corpo a superfície descamada, unhas sujas e por fazer sem ter pra quem.

Já havia alcançado a sala sem forças, despreparada. Os badulaques, outrora úteis nos bailes onde se sentia convidada, já lhe haviam sido arrancados. De saída eram puídas as vestes datadas com que se escondia, e os acessórios, gastos nas infames entradas, há tempos não reluziam mais.

De modo que já era sem pertences e em frangalhos quando adentrou a sala indigente, pra nunca mais sair.

As tripas à mostra provavam a batalha; o cheiro do sangue impregnava a ponto de imprimir o gosto na boca. De tão vermelho – último resquício de vida que ainda decorria – a arrancar-lhe os últimos prognósticos.

Quando os agentes intervieram, já não encontraram sob a luz fria nem mesmo a mulher que ela havia sido estirada na maca aguardando sem fé os últimos cuidados; nem mesmo a beleza desgastada da viúva em perdição que ela havia podido ser com fulgor.

“Fraca sou” – ouviu-se ainda na sala o fiapo de voz que ninguém mais reconhecia. “Fracassou”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Diário de Alma

No começo, a casa vazia:
O café que ninguém fazia,
A menina acuada ao medo
Coado no cedo do dia.

No almoço, a casa tremia:
Fantasmas que só a moça via
De fome, ao moço devorava
De brava, a sopa dava azia.

À janta, a mulher cedeu
A manta que erguia o breu.
Na casa, se deu família
E as almas tornaram-se filhas.

E hoje, a jovem senhora
À ceia, vagando sem hora,
Anseia o espírito de agora
No seio da casa vazia.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Terceira aparição: Ainda Aranha

Por que, Aranha, me deixaste? Deixaste-me pelo quê? Ao som do silêncio profundo na sala escura de só brancos, recebeste hoje a minha já escapada presença com a tua ausência de pontos pretos, Aranha. E Isso arranha.

Onde te escondeste enquanto eu dizia minhas tantas e tontas asneiras, enquanto transbordava de excessos e insuficiências? Dali donde ainda canso à cata de canto, abusiva e bichada, fragilmente emaranhada, em busca da singela rede onde possa, enfim, re-pousar.

Por onde andarás, minha Aranha, tu: ponto fixo que sempre regressa, e cujo retorno, quando avistado, demais assombra. Tu, de quem a saudade me co-move, me re-move, enquanto teço-me ainda em inúteis expressos excessos?

Onde aguardas, quieta e ausente, enquanto, atrás de ti, cá subo pelas paredes? Se ainda é por ti e sobre ti que digo insanidades, descomedimentos e exageros destemperados… Se ainda nada importa senão sumiço e advento de bicho estranho… E se, há tempos, sem que nunca se saiba por que, me deixaste verdadeiramente só. Desde que caí na tua rede.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Segunda aparição: Minha Aranha

Como fazes, Aranha, para viver ali acima, de modo tão plácido, lá no alto de minhas vistas, onde a esquina se ajeita arredondada, de forma e lugar tão acertados? Vejo-a imóvel, dona da teia armada, serena como há de ser todo bicho solto vivo, após embate. Noto, no ponto preto por sobre os brancos, que bem encontraste teu canto. Em contraste, teu canto.

Como aprendeste a se virar, minha Aranha? Quem te ensinou a ser assim, de habilidade certeira como meus dedos jamais serão?

Talvez de inveja eu esteja te amando, Aranha. Pois a inveja é uma forma de amar, quando sobra de não aniquilarmos. Amo-te por estares segura de mim. Quieta no teu canto. Amo-te por teus fios imponderáveis. Amo-te por que te salvam. Porque te seguram, asseguram lugar.

Então, hoje velo tua esquina disposta ao teto. E não deixo ninguém se apossar. Que não se limpe! Que não se extraia tua teia (nem mesmo aquela apartada, cor de cinza). Hoje careço que me guardes, Aranha, que vigies quando digo o que penso enquanto não penso no que digo. Que me faças companhia daí de cima. Tão enredada, ateiada, tão acomodada ao teto, tão livre quanto presa, e tão perto do chão de mim.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Primeira aparição: A Aranha Dali

A Aranha decidida movia-se na minha direção. Mexia os tentáculos com os quais tentava. Até que a notei.

Pouco diferia de como faço quando dou de mexer meus dedos por sobre teclas, compondo qualquer textura. Identifiquei-me então de saída, embora assustada com a astúcia com que realizava, bem sucedida, sua sucessão de movimentos na resoluta trajetória. Na minha direção.

Por resistência, pensei em aniquilá-la. Solução imediatista. Afinal, lá se ia ela com seus bordados, objetivos – nisso em nada assemelhando aos meus. Assim eu estancaria o incômodo e a diferença. Freou-me a preocupação com a sujeira (restos na parede da sala), mas, como permitir que a Aranha seguisse incólume seu fluxo ameaçador? Deixá-la avançar até alcançar-me, interrompendo meu suposto curso, desagradava-me de todo.

Foi quando a mulher que fala com os bichos me sugeriu que a jogasse para lá. Mas, onde ficava ‘lá’? Se lá já era ali mesmo… Onde mais a Aranha poderia estar, se não apoiada nessa mesma parede nossa, e sempre por um fio?

No final das contas, antes que eu pudesse decidir se a interceptaria, a mulher que vez por outra soltava os bichos ofereceu-se pondo as mãos. Mas a Aranha espaçosa invadiu meu lugar, faceira e esperta, como se pertencesse. Como se fosse Dali. Apossou-se do meu frágil encosto, fez seu o meu apoio, camuflou-se por entre cores, mal vista, senão pelo certeiro mover. E a partir daquele instante eu a invejei profundamente. Sua precisão a fazer o que precisa. Sua ligeireza. Seus tentáculos eficazes, feito dedos não dispersos. Logo pra cima de mim – tão difusa e enrolada.

Só depois de fingir ignorá-la e talvez tê-la atropelado é que pude fazer laço com ela. E antes que eu voltasse a supor que por fim a tinha esmagado integrei-me a ela: praticamente introjetei a Aranha, bem como sua linha solta – que, feito cabelo, coçou-me pelo rosto para o resto da vida. E bem na minha cara impregnou-se a Aranha, que já havia aparecido outras vezes na sala, seu modo veloz e rasteiro de resolver as coisas: indo pra cima, ao invés de meias voltas. Compromisso decidido, apurado no fio da meada.

De modo que dali restei até agora, pendurada. Por horas, a fio.

 Sandra N. Flanzer, inédito

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