Porta

Sempre que saio por esta porta que não abro
deixo um passado que insiste em ser advir
Pois se esta porta não acolhe futuro imediato
a mim importa o que ela escolhe concluir
 
Sei que toda passagem feita é derradeira
sei também que nada resta, pois de fato
ao atravessá-la, abandono sorrateira
as devidas horas em que me faço em ato
 
Assim contorno a maçaneta que me expulsa
dou voltas na chave desta porta que não cede
saio de banda, disfarçando o que ainda pulsa
finjo não-retorno, negando o que ainda pede.

Sandra N. Flanzer, in “a pa-lavra”

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Frugal

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Quisera este amor fosse de rima fácil
Quisera fosse desembaraçado e hábil
Fio de seda sem enredo ou fastio
Quisera fosse a tempo, não tardio.

Quisera prescindisse de densa inscrição
Quisera fosse elevado e leve, leviano não,
Se te distraio, decerto não era intenção.
Apenas, quisera, este amor não fosse vão.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Alinhavo

A linha alinha o texto
Contexto, o acaso termina
Suporte no apuro é pretexto
De corte tal muro de esquina.

A linha alinha o livro
Livrando a palavra sublinha
A lavra alinhava o que vivo
Palavrando, o fio sublima.

E a fila, que anda apurada
Filando uma curva, faz reta:
Permite delinear apalavrada
A linha que amarras liberta.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Corte da Tesoura

Tal como no apólogo machadiano, a avante agulha apontava augúrios, erguida de pontiaguda empáfia, frente à linha. Voltava-se para a subalterna e zombava-a de insignificância, justificando, em inchada superioridade, ser ela quem abria os caminhos. Gabava-se de estar sempre à frente, furando, guiando, indicando a direção, e cutucava a pobre linha que pedia passagem, em espetada provocação.

A linha, por sua vez, desfiava seu carretel sobre a peleja. De espírito enroscado, atrelada no rolo, dava corda à disputa novelada. Perdendo a linha, alegava expandir-se prosa ao passear costurada em vestes nobres, enquanto a outra se enfurnava numa cesta de costura embromada.

Pois ficariam assim até o infinito, buscando provar uma à outra seu valor no mundo, vociferando pleitos para o nada, não fosse o repentino despontar da fria e prata Tesoura. Para decidir tal embaraço entre linha e agulha só mesmo um duro golpe nessa teima que a Tesoura parecia disposta a parar, aparando.

Baque rente ao campo onde se dava a controvérsia infindável (gancho eterno sem ponto de finda), realizou a Tesoura a incisão, fazendo cintilar, no agudo do gume, lugar retalhado: eclodiu um antes e um depois, um fora e um dentro, aberto e fechado, e a linha e a agulha num vão rebaixaram-se, apartadas.

Sem cortesia, a poda deu-se do córtex ao cordão, cravando a Tesoura um sulco no real do tecido tecido por ela. Pano de fundo para a tesa Tesoura interceptar, precisa, desbastando – num só ato – tela, trama, tessitura e forro, tudo destacando e restando apenas trapo.

De corte em corte hoje consiste a Tesoura decisivo lugar nesse mundo, interrompendo o embate infinito de forças travado, vez por outra, entre agulha e linha. Seu talho inaugura formas, fia fios soltos e traduz farrapos em panos proveitos, sempre fazendo fazendas.

E o fio cortante da lâmina Tesoura é tesouro que Machado também permite rasgar.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Matéria-prima

Ensina-me a receber.
Esticar minhas mãos vazias,
Em busca do trabalho artesanal que é do outro.
Ensina-me presença obreira de aguardos e contornos
Como pontos e vírgulas, distraídos, a fazerem formas.
Ensina-me a suportar ser só sobra de barranco,
Aceitar ver moldar-se escrita em argila alhures.
Acatar – mais que catar – estilhaços de um vaso de barro
E esperar que o vento os una, só e se, sem prévia posição.
Acolher – mais que colher – os vestígios da quebra do pote
E receber do tempo cacos calcados no vaso que vaza, só vazão.
Ensina-me a re-saber pedaços que esqueci para aprender de novo.
Ensina-me a trabalhar esbarrando no vazio do nosso barro barrado.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Pudor

Ensina-me a amar.
Quero amor de todos os tipos, que vasta é minha gana de laço.
Não almejo ensinamento letrado, só letras soltas, alheias a mim.
Faze com que, se enlaçadas, formem ditos que façam o que eu faço.
Ensina-me a bordar o véu, ídolo da minha ausência, com fino cetim.
Se aspiro borda, conceda compaixão ao escutar minha impudência.
Ensina-me a namorar palavras, talhando-as soltas para o tempo.
Descubra-me no que tens revelado a-guardar como incumbência.
E onde enxergares pudor, do seu lado é por dor que estarei vendo.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Simplicidade

Quero a fome no lugar da gula
Quero a marcha no lugar da ré,
Condenada, quero o passo que pula
Do pulo do gato que a vida é.

Quero esterco no lugar de grama
Quero fáceis flores em simples jardim
No vento tórrido, renunciar à chama
Chamar de banquete qualquer capim.

Quero querer frugalmente quereres
Quero a vã redução extraída do sumo
Pingar de alegria em meros prazeres,
Regredir ao princípio singelo do prumo.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Encontro indigente

As lágrimas secas despencavam de seu rosto, na noite úmida e interminável.

Fracassada no descanso, não achava posição em sua cama de repousar. Foi quando avistou, da janela suicida, a mulher revirando na rua o lixo da madrugada. Mal vestida, procurava seu básico, aquela mulher ali, catando o lixo. Revestida de uma simplicidade estonteante: procurava o essencial no lixo da rua.

Como poderia estar aquela mulher ali, buscando algo, se lá de cima seus dejetos apodreciam-na por dentro?

Revirava-se sob o essencial para não largar seu lixo não perecível, enquanto a mulher tranquilamente revirava o lixo reciclável de sua existência.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Caminho das perdas, ou menos

Vestia cascas forradas, arrumada para o Tempo. Fazia frio de início, daí as camadas encobertas. Agasalhava-se de densas bordas sobrepostas que a escondiam de si e de alguns.

Até adentrar no caminho das perdas, de pegada.

O primeiro adereço foi preciso despregar arrancando, pois solidão ofuscada às avessas disfarçava o contrapeso carregado. Seguiu despelando – uma a uma – envolventes vestes intermediárias que só trajavam trajetos decaídos. Cedeu a molambos indumentárias vistosas. Desprendeu-se das tropas de roupas, dos trapos de loucas, e das pencas despencou caminhando. Mais um passo e largou a ferro o forro, último vestígio de brilho armado para valer e velar.

Menos sacada, sacou da face o último véu. Despida, despedida de enfatuação, de fato partiu – pelada de sentidos e de ínfimo infestada. Menos enfeite, menos enferma.

Ao final do percurso tombou fatigada, desnuda e feia de frio. Sem adornos, adormeceu viva. Sonhava panos para manga, em prantos. E de pronto desprovida, ao menos desvelada, sem acordo, acordou bem mais perto de perder-se.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Pijama alinhavado

Deparou – mas não parou – ante a visão não costumeira da costureira que tecia belas roupas feitas para cobrir soberbamente as juntas de com quem, junta, mais lhe importava estar. Ora, pespontava-se assim a oportunidade dos sonhos: jamais teria outra chance de valer-se de tal proximidade indumentária. Além disso, finalmente aprenderia a tecer com as mãos, permitindo-se imitar, a dedo, no dedal, vestidos vestidos por quem tanto admirava.

Foi quando, entre a manifesta pergunta debaixo dos panos e a latente resposta despida de tecidos, viu despontar de dentro do quarto, sorrindo, quem tanto apreciava. Segurava sobre as palmas o destino endereçado. Feito era de leve fazenda, feito era de trama de repousar: um pijama alinhavado de presente. Nas entrelinhas, avistou adereço e endereço, e revestiu-se toda de cabida alegria.

‘Logo você, essa castanha despojada’ – dizia suave a voz, respirando sutil gracejo – ‘almejando trajes como os meus?’ E seu tom emaranhava assento, acentuando a mais caseira roupagem que se poderia coser. Caimento apropriado a compor novos feitios.

‘São vestígios de vestidos’, pensou. Feito vigília que se deita acolchoada: para o forro, não há desforra. Quem sabe um dia, vincos hão de vincular.

Sandra N.Flanzer, a pa-lavra

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