In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida

Deixar que escorra, provar da bica

Gastar, roer, raspar do fundo

Fincar as unhas no umbigo do mundo.

Cravar as mãos, roçar, pegar,

Ir ao encontro de, ralar, ralar

Usar agora, desgastar, se engastar

No tempo breve que passa justo.

Perder, perder, ceder ao outro

O resto pífio desse plano torto

De achar que vivo é o que se encaixa

Quando é a morte que se guarda em caixa.

Porvir, puir, e por ir, desperdiçar

Do impossível, cruzar a faixa

Fuçar o real que no acaso sobrar

E torná-lo inútil a ponto de gostar.

 

Publicado em “do quarto”, 2017

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Têxtil

Quando o primeiro pedaço de pano despontou em sua vida, não solucionou a falta de pelo, pelo contrário. Era um pedaço de tecido parco, um leve paninho, sem/com/texto: justo apenas para calhar numa ou noutra parte do corpo da menina que já sofria de inadequação: por horas a frio, horas excessivamente quente. E ela se agarrou ao pano como quem nasce de um desejo vedado.

Ainda pequena, arrastava seu pano por onde passava. Desenhando, assim, com a ponta da malha, o próprio mundo que ia contornando conforme andava, presa ao primeiro emaranhado de fios mesmo sem ter para onde ir.

E foi com a ponta do pano, já endurecida de saliva e lágrimas, que a menina passou a marcar no mundo os dizeres que só depois passariam a tramar-se feito escrito. O texto do têxtil. Para, em seguida – dadas as iniciais palavras, dada alguma tessitura na textura da ponta do já tecido – ela ir cavoucando o próprio pano: a princípio forçando a cabeça por entre o miolo da fazenda, fazendo o rasgo primitivo. Furo aberto do tamanho e da conta da cabeça, para em seguida vê-la sobrar e faltar, incurável.

Tomado como veste, já por necessidade a menina forçava com o braço outro furo no pano, e depois mais um, de modo que aos poucos o tecido passava a perfazer o contorno de seu corpo insuficiente.

Foi o pano que teceu na menina seu molde. E, juntamente, seu desajustamento. Foi o pano que fabricou no mundo a miséria que ele mesmo se incumbiria de encobrir.

Então – e por isso -, a menina virou mulher. Passou a usá-lo como veste para desfilar nas altas rodas. Produzida no corte – e na costura -, exibia o têxtil como se fizesse parte, como se o pedaço apenso dissesse sobre ela mais do que a pele, pelada. E, como o pano havia minguado diante do tamanho aumentado de seu corpo já feito (e sem cabimento), passou a trazê-lo praticamente colado à tez, servindo-se do tecido em seu status de ornamento, simulando um corpo que jamais teria havido, ávido, se não fosse por isso.

Na sequência, deu-se um longo período em que ela experimentou sua adultez afastada do pano – posto que esquecê-lo era inevitável. Nesses tempos, evitou a nudez, mas tudo era escasso na enganosa tarefa de velar e revelar. Protegeu-se dos caimentos, mas nisso também foi mal sucedida. Então atravessou, do pano de esconder vergonhas, à vergonha de seu plano.

Até que um dia, lancinante na dor de um fracasso textual, viu a própria vida esgarçar quando deu de cara, por acaso, com o velho pano esquecido, largado tempos antes em meio à sarjeta de uma estranha calçada qualquer. Puído, descuidado e relegado às fossas, o têxtil da menina que havia se tornado uma falsa adulta agora apodrecia numa esquina.

Recolheu o paninho esfarrapado do chão na rua erma – ele, que de tão curto mal servia como lenço, embora entornasse ainda o pescoço. Foi quando notou, a pesar, que o pequeno tecido lhe cabia como uma luva: cobriria ainda suas mãos a fazenda de toda a vida e a fazenda, fazendo, era tudo que ela precisava para recomeçar.

Dali por diante enrolou-se nos retalhos, véu furado das noites, deixando-se enrolar por eles. Sem moeda de troca, faria, sempre que possível, do minto um manto. E caminharia seminua na companhia das estrelas até o fim dos tempos, onde, descoberta, veria os dias terminarem e sobre o seu corpo precário se estenderia o derradeiro pano, capa de tecido; o verdadeiro pano, capaz de ter sido.

 

Publicado em Re/talhos (2015)

 

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Porta

Sempre que saio por esta porta que não abro
deixo um passado que insiste em ser advir
Pois se esta porta não acolhe futuro imediato
a mim importa o que ela escolhe concluir
 
Sei que toda passagem feita é derradeira
sei também que nada resta, pois de fato
ao atravessá-la, abandono sorrateira
as devidas horas em que me faço em ato
 
Assim contorno a maçaneta que me expulsa
dou voltas na chave desta porta que não cede
saio de banda, disfarçando o que ainda pulsa
finjo não-retorno, negando o que ainda pede.

Sandra N. Flanzer, in “a pa-lavra”

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Frugal

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Quisera este amor fosse de rima fácil
Quisera fosse desembaraçado e hábil
Fio de seda sem enredo ou fastio
Quisera fosse a tempo, não tardio.

Quisera prescindisse de densa inscrição
Quisera fosse elevado e leve, leviano não,
Se te distraio, decerto não era intenção.
Apenas, quisera, este amor não fosse vão.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Certos insetos

Que venham as pulgas, as moscas e as vespas;
O piolho, o pernilongo e o percevejo.
Sejam bem-vindas todas as graúdas bestas
E as miúdas, que quase nunca vejo.

Adentrem na sala a barata e o gafanhoto,
Pelo friso da janela, agora aberto.
Que me invadam bichos vivos, e o morto,
Que me infecte todo e qualquer inseto.

Quero a traça traçando meu destino incerto,
Pousar no canto da cigarra e ser formiga,
Quero borboletear por aí, de peito aberto,
Ser abelhuda no veneno da mordida.

Liberem as pestes, que agora tudo é praga!
Entre minha aranha, carrapatos e mosquitos
Está aberta a peçonhenta temporada,
Quero meus grilos dando asas aos meus gritos.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

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Alinhavo

A linha alinha o texto
Contexto, o acaso termina
Suporte no apuro é pretexto
De corte tal muro de esquina.

A linha alinha o livro
Livrando a palavra sublinha
A lavra alinhava o que vivo
Palavrando, o fio sublima.

E a fila, que anda apurada
Filando uma curva, faz reta:
Permite delinear apalavrada
A linha que amarras liberta.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Corte da Tesoura

Tal como no apólogo machadiano, a avante agulha apontava augúrios, erguida de pontiaguda empáfia, frente à linha. Voltava-se para a subalterna e zombava-a de insignificância, justificando, em inchada superioridade, ser ela quem abria os caminhos. Gabava-se de estar sempre à frente, furando, guiando, indicando a direção, e cutucava a pobre linha que pedia passagem, em espetada provocação.

A linha, por sua vez, desfiava seu carretel sobre a peleja. De espírito enroscado, atrelada no rolo, dava corda à disputa novelada. Perdendo a linha, alegava expandir-se prosa ao passear costurada em vestes nobres, enquanto a outra se enfurnava numa cesta de costura embromada.

Pois ficariam assim até o infinito, buscando provar uma à outra seu valor no mundo, vociferando pleitos para o nada, não fosse o repentino despontar da fria e prata Tesoura. Para decidir tal embaraço entre linha e agulha só mesmo um duro golpe nessa teima que a Tesoura parecia disposta a parar, aparando.

Baque rente ao campo onde se dava a controvérsia infindável (gancho eterno sem ponto de finda), realizou a Tesoura a incisão, fazendo cintilar, no agudo do gume, lugar retalhado: eclodiu um antes e um depois, um fora e um dentro, aberto e fechado, e a linha e a agulha num vão rebaixaram-se, apartadas.

Sem cortesia, a poda deu-se do córtex ao cordão, cravando a Tesoura um sulco no real do tecido tecido por ela. Pano de fundo para a tesa Tesoura interceptar, precisa, desbastando – num só ato – tela, trama, tessitura e forro, tudo destacando e restando apenas trapo.

De corte em corte hoje consiste a Tesoura decisivo lugar nesse mundo, interrompendo o embate infinito de forças travado, vez por outra, entre agulha e linha. Seu talho inaugura formas, fia fios soltos e traduz farrapos em panos proveitos, sempre fazendo fazendas.

E o fio cortante da lâmina Tesoura é tesouro que Machado também permite rasgar.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Matéria-prima

Ensina-me a receber.
Esticar minhas mãos vazias,
Em busca do trabalho artesanal que é do outro.
Ensina-me presença obreira de aguardos e contornos
Como pontos e vírgulas, distraídos, a fazerem formas.
Ensina-me a suportar ser só sobra de barranco,
Aceitar ver moldar-se escrita em argila alhures.
Acatar – mais que catar – estilhaços de um vaso de barro
E esperar que o vento os una, só e se, sem prévia posição.
Acolher – mais que colher – os vestígios da quebra do pote
E receber do tempo cacos calcados no vaso que vaza, só vazão.
Ensina-me a re-saber pedaços que esqueci para aprender de novo.
Ensina-me a trabalhar esbarrando no vazio do nosso barro barrado.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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Pudor

Ensina-me a amar.
Quero amor de todos os tipos, que vasta é minha gana de laço.
Não almejo ensinamento letrado, só letras soltas, alheias a mim.
Faze com que, se enlaçadas, formem ditos que façam o que eu faço.
Ensina-me a bordar o véu, ídolo da minha ausência, com fino cetim.
Se aspiro borda, conceda compaixão ao escutar minha impudência.
Ensina-me a namorar palavras, talhando-as soltas para o tempo.
Descubra-me no que tens revelado a-guardar como incumbência.
E onde enxergares pudor, do seu lado é por dor que estarei vendo.

Sandra N. Flanzer, a pa-lavra

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