Dois gumes

Trago em mim dois lumes

Um me clareia o caminho

O outro me pede que esfume.

 

Trago em mim o farol e o estrume.

 

Trago também duas pontes:

Uma a ponta pra quando

a outra me alça pra onde.

 

São dois os meus trabalhos

Num, devoro a calma

No outro, a pressa retalho.

 

Com as duas mãos me jogam o baralho.

 

Tenho ainda duas pernas

Disjuntas – o infinito no meio

Apartam-se, apertam-se nelas

As farpas da faca-bloqueio.

 

Uma faz que não, outra diz a que veio.

 

Apresento duas caras:

Uma é polpa, a outra se poupa

Trago, mas drago, a essência das frutas raras

Visto, mas dispo, a esfarrapada roupa.

 

Esse duplo em corte se assume

Pelos talhos, passam dois gumes

Fazedores do inciso sem fim:

Um doeu, outro do mim.

 

Sandra N Flanzer, inédito

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Passagem

Da ancoragem à coragem
Da adicção à dicção
De um dizer que não seja miragem
A um fazer que não seja vão.

Do somatizar ao só matizar
De ver comprido ao dever cumprido
Da boca voraz ao pé do ouvido
Do doer ao doar, da mão ao pão.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Só matizar

Hoje ela não teve tonteiras, não desmaiou, não teve taquicardia, não teve falta de ar, não brigou, não chutou a mesa, não saiu correndo, não comeu, não falou, não revestiu, não balançou a cabeça em sinal de não.

Hoje ela não escapou de trabalhar, mas também não foi bem sucedida. Nem estatelada na cadeira e nem performática pelo salão.
E ninguém nem notou o feito minúsculo. E o mundo girou idêntico, sem pausa para reverenciar, enquanto um cheiro de concreto lhe ultrapassava as narinas.

Estaria ela na vida como nunca, ou morrera sem tela, sem tê-la?

As únicas palavras que chegaram, esfumaçaram-se em suas mãos sem tato, revelando: “hoje não tenho possibilidade”. E ela não pôde largá-las, embora só as tocasse de viés. E num instante de nuance, sem poder, acatou: “Hoje, o impossível”.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Louco motiva

Se, no caminho, topar com rocha
Que cause um baque no trem de carga
Que o acidente envergue a carcaça
Que se queimem os cabos na tocha
Que se desprendam, gerando descarga
Que se acelerem, a toda, as marchas
Que se apaguem os faróis e as marcas
Que os vagões vaguem, perdidos do freio
E que o trem desabe do desfiladeiro
Provando, enfim, a que veio.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Penal

Pena não ter-se lido
minha frase principal
marcante do bem e do mal
talhando, a cada grunhido,
minha escrita sentença cabal.

Pena, pena, esse processo penal
estampado na minha testa
mas que de mim é escondido
enquanto meu crime atesta:
agradar a quem me detesta.

Delito de berço e sem perdão
meu dolo, difundida infração
que só a mim condena:
imprimir uma solitária festa
funesta! que resta… que pena…

Vaga, vaga, alma inútil e pequena
cravando, gravando a frase final
cativa, tatuagem em espiral
da mesma condição que encena:
escrita perpétua em prisão penal.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Nascente da dor

Da dor extraio o ato que só faço se não escolho.

A dor – companheira infalível quando se nasce com defeito na alma – não pode ser combatida. É vencedora ímpar dos desmandos da existência.

A dor, mestre de todos os tempos, escolhe soberana quando e se vai ou não brotar de novo, quando e se vai ou não botar um ovo. Estar à mercê, de cócoras, entregue ao acaso a ponto de não contabilizar, eis quando a dor se faz mais autêntica. E nunca se sabe se é da dor pré-coisa que se está padecendo.

Não há parto sem dor, por mais eficazes os avanços da ciência. É verdade que muitas coisas caem no mundo desde um ventre indolor. O que não significa de modo algum que tenham nascido.

Sandra N. Flanzer, inédito

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