A fuga

De quarta-feira tenho só feição. Gosto de moça praticada e de estribar comprido. Gosto de tordos com rio e de ocelados gaviões-fumaça. Saí do poder de meu padrinho com 18 anos. Correr as cercas do mundo. E pois! Rosado não é o canto do sabiá que vem de longe? Fui no aceno do pássaro. Exceção não se abriu pra mim. Nadei sem água por baixo. No quartel fui anspeçada. Puxei muar de sargento. Vi bugio tocar comércio. Tirei urinol de padre. Usei égua de sacristão. Peguei reza de empreitada. Hoje benzo bicheiras a distância. Desmancho mal de prepúcio. Porém uso os mistérios com cuidado. Porque ninguém não sabe ainda adonde que começa o fim do arcano nem o começo da roda. Hoje estou comparado com árvore. Sofrimento alcandorou-me. Meu orgulho ganhou dejetos. Vou nascendo de meu vazio. Só narro meus nascimentos. Sou trinado por lírio como os brejos. É nos loucos que grassam luarais. Sei muitas coisas das cousas. Hai muitas importâncias sem ciências. Sei que os rios influem nas plumagens das aves. Que vespas de conas frondosas produzem mel azulado. E as casas com rio nos fundos adquirem gosto de infância. Isso eu sei de me ser. Falando é que não se entende. Difícil é pregar moringas em paredes. E totalmente eu prego. Caminho de urubu pois não tem pedras. Não somo com detrimentos. No mais são caracóis e cios de roseiras.

Manoel de Barros, Poesia Completa

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Praga

Hoje, uma espécie de bicho
Me tomou, subiu pelo nicho
Um tipo assim bem nojento
Transportado pelo vento
Adentrou, subiu pela cama
Tendo asas e barbatana
Um tipo assim pegajoso
Infectando o espaço todo
Bicho de estirpe surreal
Contagiando o corpo total
Uma laia de inseto que gruda
Nos pés, nas mãos e na bunda
Que ilude, se finge de fraco
Mas ressurge do buraco
Aquele tipo legítimo de bicho
Que se nutre da falta e do lixo
Um tipo sem pena, que emana
Transformando o vazio em gana
E tanto agrada quanto engana:
Tipo a gente, quando ama.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Borboleta Amarela

Coisa mais linda a Borboleta
Que brotou na minha janela…
Todas as cores, uma faceta:
Como não amar ela?

Imagem 1

Ventura carregando encanto
Passou rente à minha presença,
Pousou breve e fez meu canto
Num instante, sem licença.

E me visita sem hora marcada
Marcando as horas com sua visita,
Trazendo estilo onde antes o leve,
Levando o Tempo enquanto se agita.

Presente raro a Borboleta realiza
Enquanto recolho o que resta dela:
O ar desloucado, a tênue brisa,
O sopro sereno na varanda singela.

Por um lado, encontro e pró cura
Por Outro inexiste, mas por um segundo…
Como é bela a Borboleta que dura
No bater das asas que criam o mundo.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Metamorfrases

Que a libélula se torne liberta
Que a métrica extrapole a meta
Que os rastejantes virem voa dores
Para o corte, vir em cores.

Que a cigarra, com garra, se desgarre
Transformada, que a frase mude a fase
Que as rasas asas transmutem à altura
Pra que a amargura se converta em amar cura.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Certos insetos

Que venham as pulgas, as moscas e as vespas;
O piolho, o pernilongo e o percevejo.
Sejam bem-vindas todas as graúdas bestas
E as miúdas, que quase nunca vejo.

Adentrem na sala a barata e o gafanhoto,
Pelo friso da janela, agora aberto.
Que me invadam bichos vivos, e o morto,
Que me infecte todo e qualquer inseto.

Quero a traça traçando meu destino incerto,
Pousar no canto da cigarra e ser formiga,
Quero borboletear por aí, de peito aberto,
Ser abelhuda no veneno da mordida.

Liberem as pestes, que agora tudo é praga!
Entre minha aranha, carrapatos e mosquitos
Está aberta a peçonhenta temporada,
Quero meus grilos dando asas aos meus gritos.

Sandra N. Flanzer,  por um, segundo

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A maior riqueza do homem é sua incompletude

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros, Retrato do artista quando coisa

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A quinta história – Clarice Lispector

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te… Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de…” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Leibnitz e a transcendência do amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas.

Clarice Lispector, Felicidade Clandestina

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Uma Esperança – Clarice Lispector

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:

– Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.

– Ela quase não tem corpo, queixei-me.

– Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.

– Ela é burrinha, comentou o menino.

– Sei disso, respondi um pouco trágica.

– Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.

– Sei, é assim mesmo.

– Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.

– Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.

– Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar – estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia “a” aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:

– É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte…

– Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.

– Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros – falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

 Clarice Lispector, Felicidade Clandestina

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