In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida

Deixar que escorra, provar da bica

Gastar, roer, raspar do fundo

Fincar as unhas no umbigo do mundo.

Cravar as mãos, roçar, pegar,

Ir ao encontro de, ralar, ralar

Usar agora, desgastar, se engastar

No tempo breve que passa justo.

Perder, perder, ceder ao outro

O resto pífio desse plano torto

De achar que vivo é o que se encaixa

Quando é a morte que se guarda em caixa.

Porvir, puir, e por ir, desperdiçar

Do impossível, cruzar a faixa

Fuçar o real que no acaso sobrar

E torná-lo inútil a ponto de gostar.

 

Publicado em “do quarto”, 2017

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Carta para o Ano Novo

Bem-vindo, sagrado Ano Novo.img_0537

Te espero sentada, já em final de festa, exausta de tanto girar por entre as notícias indigestas que seu antecessor, que ora se despede, teve o mau gosto de espalhar.

Te aguardo aqui, num lugar onde nunca estive, visto que os ciclos, embora se repitam, não retornam ao mesmo ponto.

Espero te encontrar com contentamento e disposição, pois há chão pela frente e é preciso fibra para dispensar o ordinário, e gana para manter-se no essencial.

Voto para que você me conceda tarefas. Não me aborrece o intenso trabalho, mas torço para que ele venha aliado ao tempo justo das últimas manhãs.

Não me refiro à pressa, sedutora e enganosa, que propaga agilidade enquanto exacerba o atraso. Mas à urgência, essa sim de boa estirpe e rara, que nos obriga a comparecer precisamente onde somos chamados.

Estarei aqui para o que der e vier. Mas não me venha com aquelas listas intermináveis, que me mantêm refém das metas. O preço de desgarrar-se dessas algemas não vale nem um suspiro no mundo ideal que elas prometem.

Traga-me, Novo Ano, a quentura desmedida dos domingos de praia, a leveza tenra das tardes de inverno e o frescor da primeiríssima lua cheia.

Ah, e por favor: não me apareça com mais eletrodomésticos para consertar.

Que pelo menos uma vez por mês você me lembre que a vida é de passagem, que o que importa se abre para tornar a se fechar, que a força da flor está na sua brevidade, que a beleza do sol poente deve à finitude seu melhor irradiar.

Que você desista de me fazer cruzar os meses num piscar de olhos e me permita o privilégio da ilusão tola de que dará tempo.

Sei que ao final, como agora, estaremos fazendo a contagem dos mortos que julgávamos imprescindíveis. Apesar disso, deposito em você meus melhores votos, feito moça à espera do carteiro que trará o convite, a boa nova na abertura do envelope.

Te espero na ponta do lápis, Ano Novo, com a expectativa purificada da criança que chora de gratidão diante do caderno em branco recém ganhado.

Te vislumbro no familiar encontro, como quem se reconhece no nome surtido da boca do outro pela primeira vez. Te aguardo com a alegria ingênua de quem prova uma nova língua.

Te desejo como grávida que se encaminha ao parto normal: na aposta do desfecho, ainda que com dor. Avisada de que a dor é um sinal de vida, pois sem ela o corpo custa a saber da coisa quando verdade.

Finalmente te aguardo, Novo Ano, arrumada com laço de fita de seda na cabeça, meu melhor vestido branco (que hoje me aperta dos lados), e toda a pompa digna da chegada. Embora já tenha vivido o bastante para saber que todo enfeite é vão, pois o que você exige de mim é coragem.

Lembrando por instantes que é das quedas que se erguem os melhores santuários, que é dos tropeços que se instalam os mais sólidos caminhos, e que é das brechas que se extraem as mais reais experiências. Para que o novo vingue, nascente na manhã do amanhã, confirmando mais uma vez que a vida não está onde parece, mas sim onde perece.

Publicado em Revista de domingo, O Globo, em 08/01/2017

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Têxtil

Quando o primeiro pedaço de pano despontou em sua vida, não solucionou a falta de pelo, pelo contrário. Era um pedaço de tecido parco, um leve paninho, sem/com/texto: justo apenas para calhar numa ou noutra parte do corpo da menina que já sofria de inadequação: por horas a frio, horas excessivamente quente. E ela se agarrou ao pano como quem nasce de um desejo vedado.

Ainda pequena, arrastava seu pano por onde passava. Desenhando, assim, com a ponta da malha, o próprio mundo que ia contornando conforme andava, presa ao primeiro emaranhado de fios mesmo sem ter para onde ir.

E foi com a ponta do pano, já endurecida de saliva e lágrimas, que a menina passou a marcar no mundo os dizeres que só depois passariam a tramar-se feito escrito. O texto do têxtil. Para, em seguida – dadas as iniciais palavras, dada alguma tessitura na textura da ponta do já tecido – ela ir cavoucando o próprio pano: a princípio forçando a cabeça por entre o miolo da fazenda, fazendo o rasgo primitivo. Furo aberto do tamanho e da conta da cabeça, para em seguida vê-la sobrar e faltar, incurável.

Tomado como veste, já por necessidade a menina forçava com o braço outro furo no pano, e depois mais um, de modo que aos poucos o tecido passava a perfazer o contorno de seu corpo insuficiente.

Foi o pano que teceu na menina seu molde. E, juntamente, seu desajustamento. Foi o pano que fabricou no mundo a miséria que ele mesmo se incumbiria de encobrir.

Então – e por isso -, a menina virou mulher. Passou a usá-lo como veste para desfilar nas altas rodas. Produzida no corte – e na costura -, exibia o têxtil como se fizesse parte, como se o pedaço apenso dissesse sobre ela mais do que a pele, pelada. E, como o pano havia minguado diante do tamanho aumentado de seu corpo já feito (e sem cabimento), passou a trazê-lo praticamente colado à tez, servindo-se do tecido em seu status de ornamento, simulando um corpo que jamais teria havido, ávido, se não fosse por isso.

Na sequência, deu-se um longo período em que ela experimentou sua adultez afastada do pano – posto que esquecê-lo era inevitável. Nesses tempos, evitou a nudez, mas tudo era escasso na enganosa tarefa de velar e revelar. Protegeu-se dos caimentos, mas nisso também foi mal sucedida. Então atravessou, do pano de esconder vergonhas, à vergonha de seu plano.

Até que um dia, lancinante na dor de um fracasso textual, viu a própria vida esgarçar quando deu de cara, por acaso, com o velho pano esquecido, largado tempos antes em meio à sarjeta de uma estranha calçada qualquer. Puído, descuidado e relegado às fossas, o têxtil da menina que havia se tornado uma falsa adulta agora apodrecia numa esquina.

Recolheu o paninho esfarrapado do chão na rua erma – ele, que de tão curto mal servia como lenço, embora entornasse ainda o pescoço. Foi quando notou, a pesar, que o pequeno tecido lhe cabia como uma luva: cobriria ainda suas mãos a fazenda de toda a vida e a fazenda, fazendo, era tudo que ela precisava para recomeçar.

Dali por diante enrolou-se nos retalhos, véu furado das noites, deixando-se enrolar por eles. Sem moeda de troca, faria, sempre que possível, do minto um manto. E caminharia seminua na companhia das estrelas até o fim dos tempos, onde, descoberta, veria os dias terminarem e sobre o seu corpo precário se estenderia o derradeiro pano, capa de tecido; o verdadeiro pano, capaz de ter sido.

 

Publicado em Re/talhos (2015)

 

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Dois gumes

Trago em mim dois lumes

Um me clareia o caminho

O outro me pede que esfume.

 

Trago em mim o farol e o estrume.

 

Trago também duas pontes:

Uma a ponta pra quando

a outra me alça pra onde.

 

São dois os meus trabalhos

Num, devoro a calma

No outro, a pressa retalho.

 

Com as duas mãos me jogam o baralho.

 

Tenho ainda duas pernas

Disjuntas – o infinito no meio

Apartam-se, apertam-se nelas

As farpas da faca-bloqueio.

 

Uma faz que não, outra diz a que veio.

 

Apresento duas caras:

Uma é polpa, a outra se poupa

Trago, mas drago, a essência das frutas raras

Visto, mas dispo, a esfarrapada roupa.

 

Esse duplo em corte se assume

Pelos talhos, passam dois gumes

Fazedores do inciso sem fim:

Um doeu, outro do mim.

 

Sandra N Flanzer, inédito

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Tudo no mundo começou com um sim.

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?

 

Clarice Lispector, A hora da estrela

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P1000642Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima. (…)

Qual de nós pode, voltando-se no caminho onde não há regresso, dizer que o seguiu como o devia ter seguido?

Fernando Pessoa, Livro do desassossego

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Passagem

Da ancoragem à coragem
Da adicção à dicção
De um dizer que não seja miragem
A um fazer que não seja vão.

Do somatizar ao só matizar
De ver comprido ao dever cumprido
Da boca voraz ao pé do ouvido
Do doer ao doar, da mão ao pão.

Sandra N. Flanzer, inédito

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Porta

Sempre que saio por esta porta que não abro
deixo um passado que insiste em ser advir
Pois se esta porta não acolhe futuro imediato
a mim importa o que ela escolhe concluir
 
Sei que toda passagem feita é derradeira
sei também que nada resta, pois de fato
ao atravessá-la, abandono sorrateira
as devidas horas em que me faço em ato
 
Assim contorno a maçaneta que me expulsa
dou voltas na chave desta porta que não cede
saio de banda, disfarçando o que ainda pulsa
finjo não-retorno, negando o que ainda pede.

Sandra N. Flanzer, in “a pa-lavra”

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